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escrevo a dor e o prazer de viver vivo para escapar da morte morro e acordo cada vez mais forte

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Para Valéria, Waleska e para todas as mães do mundo

Queridos e queridas,

Em um dos memoráveis diálogos nos romances de Jean-Paul Sartre, um personagem questiona o absurdo que é morrer em uma guerra. Tão jovem, a vida toda pela frente... ao que o outro personagem prontamente rebate: morrer é sempre absurdo. Não importa se aos nove ou se aos noventa, portanto. Será?
Valéria é uma querida amiga minha. Waleska é minha querida irmã. Elas não se conheciam. Por uma dessas ironias do destino, souberam da existência uma da outra por causa de um trauma em comum, da dor mais lancinante que um ser humano talvez seja capaz de suportar: a perda de um filho. Não importa se aos nove ou se aos noventa, a perda de um filho é, e sempre será, um absurdo.
Talvez mais absurdo seja saber-se vivo e ter que continuar vivo, respirando oxigênio, expirando algum resquício de esperança no destino, para que em algum momento da vida vindoura venha também alguma explicação, que tenha algum sentido, que continuar vivo não seja em vão. Outro trauma em comum: ambos os jovens foram assassinados. Um, por latrocínio. O outro, por engano. Outro trauma em comum: ambos os criminosos são jovens, jovens como os que tiveram sua vida ceifada. Assim. Um tiro, dois tiros, três tiros, quatro tiros.

A lei dos homens prevê julgamento, prevê privação de liberdade, cumprimento de pena. A lei de Deus, para os que acreditam Nele, é a lei da justiça divina. Para os que não acreditam, a teoria sartreana da condenação a ser humano, livre e mortal. Acreditando em Deus ou não, o fato é que temos o livre arbítrio. Por isso, uns agem de um jeito, e outros agem de outro jeito. Nada justifica matar alguém. Eu sou defensora dos direitos humanos, quem me conhece sabe, e quem não me conhece, por favor, não pense que defensores de direitos humanos são defensores de bandidos. Eu defendo o direito à vida, o direito a uma vida digna. Para todos. E se há algo sartreano com o qual eu concordo inteiramente é a lucidez com que ele percebe que o inferno está aqui mesmo, no que fazemos ou deixamos de fazer, agindo de má fé, marionetes de sistemas que desumanizam, que aumentam cada vez mais os abismos sociais, econômicos e humanos entre as pessoas. Por isso, jovens matam, jovens morrem. Por isso, todas as mães do mundo choram por seus filhos, temem por suas vidas, e fariam tudo o que pudessem para estar no lugar deles, seja numa guerra, na saída de uma festa, na carona de uma moto, em um presídio.

Amanhã será mais um dia doloroso para a minha querida amiga Valéria. O julgamento. Que para a minha querida irmã Waleska acontecerá em um futuro não muito distante. Eu peço a elas, e peço a todas as mães do mundo, que compreendam, não que entendam, mas que compreendam que todo o amor que elas carregam precisa, e muito, ser dado a muitas pessoas que neste exato momento sofrem de fome, de doença, de falta de afeto. No filme A Corrente do Bem (direção de Mimi Leder 2000), um jovem (Haley J.Osment) acredita ser possível mudar o mundo a partir da ação voluntária de cada um. Com seu idealismo, ele termina por contagiar um sisudo professor (Kevin Spacey), até então cercado por suas próprias defesas. A morte absurda do jovem não termina, na verdade estreita ainda mais os laços entre aqueles que de alguma forma foram tocados por seu idealismo e pela vontade de viver em mundo melhor.

Nós somos todos tocados por vocês, mães de todo mundo, Valéria e Waleska, pessoas de coragem, de fé, de uma corrente do bem.
Beijos

Se eu morresse amanhã (Álvares de Azevedo)

Se eu morresse amanhã,
viria ao menos Fechar meus olhos minha triste irmã
Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã!
Que sol! que céu azul! que doce n'alvaAcorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã!

3 comentários:

  1. Valéria Beatriz3 de julho de 2009 14:16

    Querida amiga,

    Ontem, dia 29 de junho, resolvi não trabalhar à noite pois estava tensa demais com a idéia do Júri.
    Fiquei assim, meio boba, lendo aqui e ali, arrumando coisas, bisbilhotando a
    internet. Então lembrei de ler
    todos os títulos de teu blog.

    Gian, acho a tua prosa fantástica, deliciosa. Te acho uma escritora pronta.
    Gosto muito da tua construção de texto que traz memórias.
    Tua prosa parece um rio que brilha ao sol vindo de um manancial belo, profundo,
    rico e que não pode ficar oculto. Foi isto mesmo que pensei ontem a noite.
    Na volta de minha viagem pelo teu texto que andava para tráz, encontrei a
    mensagem que escreveste para as mães falando de mim e na Walesca.
    Fiquei muito comovida. Foi como um grande e terno abraço. Muito obrigada minha
    querida e amada amiga!
    Ontem mesmo enviei. Tomei a liberdade de copiar a página, e enviei para todos os
    meus parentes e amigos.

    Tem tanta coisa que gostaria de falar de teu texto que tive vontade de me
    matricular no curso de Letras para
    tentar fazer algo tão lindo , que não é só tecnica mas um saber profundo e um
    mundo interior rico.
    Saber dizer o que sentimos, assim tão lindamente, é um presente de Deus.

    Sou muito orgulhosa de ser tua amiga, alem de grata e feliz.

    Beijos da
    tua amiga Valéria

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  2. Amada irmã,
    obrigada pelo apoio que me oferece sempre,mesmo de longe,sei que me ama muito,assim como também te amo demais,passamos por espiações muito dificeis,mas sei que suportaremos todas as dificuldades em relação a ausencia de meu amado filho William e acredito muito na justiça,tanto na divina como na dos homens,apesar do mundo em que vivemos.Tenho tentado sobreviver nesses ultimos quatro anos....nossa,como o tempo passa,parece que foi ontem,mas Deus me deu as duas estrelas mais lindas que esse planetra terra possa ter,William e Giampietro,que me faz levantar todos os dias pela manhã e agradeco a Deus por ter meu Giampietro sempre por perto,assim como voces,minha mana Giancarla e Cassandra.Sinto muita saudade de quando eramos pequenas,ahhhh,que saudade,pena que o tempo não volta,mas levo comigo todas as lembranças lindas de nossa infância.
    saba que amo muito voce e meus sobrinhos,muito mesmo,nunca esqueça disso e conte sempre comigo e sei que nosso amado William esta nos iluminando com sua luz divina e abençoada pelos nosso pais e por Deus.
    bju

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