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escrevo a dor e o prazer de viver vivo para escapar da morte morro e acordo cada vez mais forte

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

CineDHebatendo direitos humanos

Queridos e queridas,

Cinema e direitos humanos é um dos temas que mais trato neste blog. Porque são estes os ponteiros de meu relógio biológico, cinema e direitos humanos. Por esta razão, desde a criação da Liga dos Direitos Humanos, que eu fundei e coordeno desde 2007, existe uma ação denominada CineDHebate, um ciclo de exibição de filmes com debates sobre o tema abordado em cada sessão. Apesar de eu ter tentáculos para dar conta de uma vida atribulada, eles não são mais suficientes. A Liga cresceu - e que ótimo que cresceu! Eu vejo a Liga como uma criança que está adolescendo, um projeto que começa a espraiar seus horizontes interdisciplinares e transdisciplinares.

Regionais e transnacionais. É o programa de rádio, a produção de documentários, a divulgação de notícias e eventos, a organização de aulas abertas, fórum anual, e de um novo projeto sobre o qual falarei em breve. E o cinema, desde o começo, sempre cumprindo uma função que também é muito importante e digna na educação em direitos humanos: a exibição de curtas, documentários e longas de ficção que despertam nos espectadores uma visão própria, uma consciência crítica e reflexiva. É um grande momento de debate, de trocas, de compartilhar pensamentos, opiniões, posições. De questionar, de discutir pontos e contrapontos. Aprende-se muito em uma sala de cinema.
Daí a origem e a existência do CineDHebate da Liga dos Direitos Humanos.

No ano passado, a Gárdia, querida amiga e colega da Liga, coordenou a seleção dos fimes e a organização dos debates. Lembro que a seleção priorizou curtas-metragens e documentários nacionais, muitos com temas bem regionais e todos sempre muito polêmicos. Temas como aborto, sistema prisional, prostituição, foram alguns dos pontos de debate nos filmes escolhidos. Neste ano, a querida amiga Dagmar Camargo, companheira da Liga, além de ter uma intensa e extensa militância em direitos humanos (como coordenadora da CONRAD, coordenadora de projetos da DIST e da área de Comunicação no Comitê de Educação em Direitos Humanos do Rio Grande do Sul), assumiu a coordenação do CineDHebate, em uma parceria da Liga com a DIST - Democracia, Inclusão Social e Trabalho.

Eu admiro demais a Dagmar. Desde os tempos em que nos conhecemos, como colegas na Primeira Turma do Curso de Especialização em Direitos Humanos da UFRGS e Escola Superior do Ministério Público da União. A Dagmar sempre sentou na frente, primeira fila, e uma das que mais participava nas aulas, com perguntas, com sugestões, com críticas, com contribuições. E sempre agitando bandeiras, viajando por este e por outros Pampas, socializando notícias, ações, campanhas, manifestações. O tempo para a Dagmar certamente não tem apenas24 horas.
E nem ela tem tentáculos.
Ela os produz e reproduz, com uma vitalidade e um espírito de luta admiráveis.

O CineDHebate 2009 tem a cara da Dagmar. São filmes impecáveis, escolhidos pelos temas efervescentes, em questões globais como o meio ambiente, a crise financeira, os poderes das grandes corporações, a privatização do Rio São Francisco, os desafios na educação em um ambiente de violência e exclusão social, and so on.

Na próxima semana, o CineDHebate, que sempre acontece às sete da noite na Sala Redenção da UFRGS, com entrada franca, exibirá o filme Escritores da Liberdade. e na sequência, debate com a participação de Mariliane Ferreira dos Santos, diretora do CPERS/RS, e Ana Maria Bueno Accorsi, professora da UERGS, e que desenvolveu trabalho sobre o livro Escritores da Liberdade ainda não traduzido para o português. Escritores da Liberdade é uma co-produção alemã e norte-americana de 2007. Com direção de Richard LaGravanese, a obra é uma adaptação da história real da professora Erin Grunwell, uma professora novata que tenta inspirar seus alunos problemáticos a aprender algo sobre tolerância, autoestima, e valorização dos sonhos.
O filme aborda de uma forma comovente o desafio da educação
em um contexto social problemático e violento.

E no dia 25 de novembro, é a vez do filme A Questão Humana. Após a exibição, debate com o psicólogo Fernando Lunkes, diretor de comunicação do Sindicato dos Psicólogos do Rio Grande do Sul. O filme é uma produção francesa de 2007 baseada no romance homônimo de François Emmanuel. A obra dirigida por Nicolas Klotz, completa a trilogia sobre a crise econômica francesa, composta também pelos filmes A Pátria, e A Ferida.

Em A Questão Humana, o psicólogo da filial francesa de uma petroquímica alemã investiga, a pedido do vice-presidente da corporação, a vida do presidente, que é suspeito de insanidade mental. Este é um filme de investigação, no qual o próprio investigador - o psicólogo - passa a sofrer uma profunda transformação. Há no filme uma linha que aproxima o modelo empresarial contemporâneo ao Holocausto.
Reestruturação, reengenharia, realinhamento, eis alguns termos cuja linguagem asséptica e tecnocrática designa uma manipulação de pessoas em
um sistema no qual o que menos importa são as pessoas.

O filme acende uma polêmica ao fazer essa comparação. Ela é possível e plausível? O protagonista-psicólogo-narrador é um homem que ao investigar, sofre com o que descobre. Sua integridade é testada o tempo todo, bem como a sua própria sanidade mental.
Talvez sua insanidade seja a prova de que finalmente ele descobriu o que buscava.
Boa noite!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Lava-pés, os poetas e os idiotas


Queridos e queridas,

Até o post de hoje, eu não havia lhes falado sobre quando comecei a realizar vídeos: roteiro, produção, direção... O interesse pelo cinema existe, por certo, desde quando eu era um fetinho. Meu nascimento foi algo cinematográfico. Com direito a tudo o que eu não tinha direito: muitas dores em minha mãe, muita correria entre os médicos, por conta de problemas detectados imediatamente após o meu primeiro suspiro. Eu fui a filha que mais demorou para nascer e que menos demorou para começar a incomodar... Tudo me incomodava: a poluição que me provocou a bronquite; a curiosidade, que me levava a cometer atos insanos, como abrir um sofá para ver o que tinha por dentro, ou beber um copo com gema de ovo achando que era bebida de adulto... A falta de confiança em mim mesma, que me levou a escrever uma "cola" de Geografia no estojo de madeira; tirei nota máxima, pois ao preparar a tal "cola", memorizei a matéria. Só que isso não "colou" quando a professora viu meu estojo aberto... Meus pais foram chamados à escola. E eu aprendi a lição: se eu gosto tanto de drama e de ação, eu deveria escrever mais sobre isso.
Seria menos perigoso para mim e para os outros.

Nas redações da escola era só nota dez e dez e dez. Nas redações da vida, como poemas de amor, diário com anotações de uma adolescente existencialista, era só zero e zero e zero. Eu lia muito, de histórias em quadrinhos a clássicos de filosofia que eu pegava na estante de livros de meu pai. De fotonovelas italianas de minha mãe a obras de Machado de Assis. Escrever era já uma necessidade, uma extensão de meu braço, de minha mão canhota e de meu cérebro. Mas não era suficiente. Minha imaginação precisava das imagens que o texto sugeria, mas não mostrava.

Somente quando já adulta, e tendo escrito um livro de poemas, além de vários contos engavetados, e alguns roteiros bem guardados, resolvi cometer mais um ato insano. Desta vez, não abri outro sofá, nem bebi água da privada... Fui fazer um vídeo. Queria fazer um documentário em um minuto, um minuto e meio no máximo. Queria fazer algo útil, algo com sentido, algo que expressasse muito mais pelo visto, pelas imagens, que eu não precisasse escrever uma tese. Que todos vissem e entendessem. Eu perdi um sobrinho lindo e querido, com apenas 15 anos, assassinado por engano. Minha melhor amigairmã Valéria havia perdido seu filho Rodrigo em um assassinato igualmente brutal - como de fato são sempre todos os crimes.
Eu escrevi o roteiro de Lava-pés, reuni amigos para produzir esse vídeo, feito de forma totalmente independente e alternativa. Uma câmera na mão, figurantes voluntários, alguns objetos de cena emprestados, e depois um baita profissional para fazer a montagem. A música, Amigo Punk, a preferida de Rodrigo, com a autorização de uso no vídeo gentilmente cedida pelos seus autores, Marcelo Birck e Frank Jorge. O vídeo foi feito, e já foi visto por várias pessoas. Em todos os locais onde foi exibido, suscitou debate, reflexão, e principalmente, o choque que todos tem ao perceber que a juventude é vítima da violência, quando a comete e quando dela é presa. Jovens matam, se matam e são mortos. Corriqueiramente. Suicídios. Execuções. Latrocínios. Muitas mães choram a perda de seus filhos.
Quando eles morrem. E quando, diante da Justiça, de um tribunal, com juiz, promotor e defensor, o réu é absolvido. Provas insuficientes? Discurso da defensoria falacioso? Júri preconceituoso? (afinal, jovens com piercings e tatuados não podem ser "boa coisa"...)
O assassino de Rodrigo foi absolvido. Dentro dos trâmites da lei, não da Justiça. Valéria sentiu a perda de seu filho mais uma vez. Enquanto alguns lavam as mãos, ela usou as suas para enxugar sua dor. Entrar com recurso? Deixar para a chamada Justiça Divina?
Conformar-se ou indignar-se? O que dizer para as mães que perdem seus filhos?

Eu apenas abraço. E através desse vídeo, o mais curto, o mais impactante, o mais importante que já fiz, procurei mostrar que podemos escrever e produzir vídeos que de alguma forma ajudem as pessoas a olhar um palmo diante do nariz, a ver o óbvio. Como aquele provérbio chinês, segundo o qual o poeta aponta a lua enquanto o idiota olha para o dedo.

Valéria. Eu fui acusada pela professora de Geografia de ter colado, e eu não tinha. Meus pais foram à escola. Depois que eu falei para eles o que aconteceu, eles me abraçaram. E acreditaram em mim. Sinta-se abraçada por todos os que te amam e compartilham de tua luta e de tua dor. E que acreditam que a Justiça existe, apesar dos idiotas que continuam a olhar para o dedo...
Beijo no coração.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O sol no quadro

Queridos e queridas,

O diretor franco-polonês Roman Polanski está vendo o sol nascer quadrado. Ele foi preso na Suíça, logo ao desembarcar naquele país onde iria receber uma homenagem pelo conjunto de sua obra, no Festival de Cinema de Zurique. O motivo da detenção, é a acusação que o diretor sofre por parte dos Estados Unidos, de ter tido relações sexuais com uma menina que em 1977 tinha 13 anos. Os EUA querem a extradição de Polanski. E Polanski, hoje com 76 anos, está determinado a se defender. Apesar de ser um mandado de prisão internacional, fica evidente a armadilha feita ao veterano e controverso cineasta, que inclusive não foi receber seu Oscar de Melhor Diretor em 2002, pelo filme O Pianista, por não poder pisar em solo americano. A Promotoria de Los Angeles vai enviar o pedido de extradição às autoridades diplomáticas, do governo e da Justiça para reaver o passe de Polanski. Coisa de cinema?

Para muitos amigos de Polanski, essa atitude soa como uma armadilha policial, ou ainda, nas palavras de Andrzej Wajda, uma ameaça de linchamento judicial. Uma petição foi assinada por vários artistas e cineastas, como Costa-Gavras, Wong Kar-Wai, Walter Salles, Ettore Scola, Giuseppe Tornatore, Monica Bellucci, Fanny Ardant, Pierre Jolivet, Bertrand Tavernier, entre outros. Para a Associação de Roteiristas e Diretores de Cinema da Suiça, esse país pode sofrer um grande abalo, se for conivente com essa armação, por eles chamada de escândalo jurídico.

Embora a Justiça Americana alegue agir dentro da legalidade do que prevê um tratado internacional, o que mais causa estranheza é que o motivo - a adolescente de 13 anos com quem o cineasta teve uma relação há mais de trinta anos - pediu o fim do caso.
Cinema e direitos humanos, direitos humanos no cinema. Enquanto os próximos dias revelarão uma quebra de braço entre os operadores da Justiça americana e os defensores de Polanski, uma coisa fica certa, clara e transparente: uma história mal resolvida é como um filme que parou de ser rodado, ficou incompleto, para decepção daquele que o criou. O filme pode ficar lá em um canto, uma fita, um HD. Pode ficar ignorado, mas não esquecido. O que foi feito, foi feito.

Uma história mal resolvida é algo que pode até dar um certo ar de complexidade, de dramaticidade a quem a vive, como é o caso de Polanski. Mas é algo que lhe tira a paz de espírito, que transforma sua vida em algo controverso. O genial diretor de filmes como Armadilha do Destino (1966), Dança com Vampiros (1967), O bebê de Rosemary (1968), Chinatown (1974), O Inquilino (1976), e o oscarizado O Pianista (2002) é autor de mais de 40 longa-metragens. Ator, produtor e diretor, imprimiu sua marca autoral que o transformou em um dos mais respeitáveis nomes do cinema, e igualmente uma história de vida das mais atribuladas. Eu particulamente acho genial o filme Repulsa ao Sexo (1965), no qual Catherine Deneuve, a maravilhosa atriz de A Bela da Tarde, já realizava nesse filme a interpretação magistral de uma louca assassina, em um filme de terror com uma profundidade psicológica que nos remete aos maravilhosos filmes de Alfred Hitchcock.
Roman Polanski, como seus filmes, e esse em particular, é um homem que pode causar repulsa, por ele ser quem é e como é. Perturbador, como seus filmes.
Boa noite!

domingo, 27 de setembro de 2009

Quem faz os filmes?

Queridos e queridas,

Eu falei ontem em chuva torrencial. Quem não é daqui de Porto Alegre, não faz idéia do quanto aqui choveu neste fim de semana. Há poucos instantes, a chuva parou. E não voltou. Deve ter algo errado. Porque este domingo foi avassaladoramente molhado, úmido, chuvoso. Fiquei ilhada dentro de casa, imaginando como seria esta situação durante uma semana, um mês, o ano inteiro assim. Chovendo sem parar. Pensei em começar a escrever uma história assim. Uma mulher que não sabe nadar fica presa em sua própria casa, devido a uma inundação.

Vislumbro essa história em um livro. Um conto, por exemplo. Vislumbro também esse argumento como origem de um filme. Um curta-metragem. Consigo visualizar todos os elementos. A protagonista - mulher que não sabe nadar, as locações, os objetos de cena, as sequências com a chuva reinante na história inteira. A questão que aqui se impõe é uma frase do célebre Stanley Kubrick: "Livro é livro, filme é filme". Afinal, a chuva no livro pode ser uma metáfora. Não é uma chuva real. É uma chuva de problemas, de dúvidas, de interrogações, de dilemas, que geram uma inundação interior na personagem, que não sabe nadar, ou seja, que não sabe como resolver essa situação. No livro, o escritor pode usar de todos os artifícios literários para explorar essas nuances, as subjetividades e as entrelinhas. No filme, a linguagem é outra. Será possível dar o mesmo tratamento que no livro? E é necessário e desejável que seja assim?

A liberdade de criação na narrativa literária e na narrativa fílmica é um dos assuntos que mais me fascina quando falo sobre cinema e literatura. Para mim, que escrevo, são almas gêmeas, caras metades. Cada qual, porém, com sua identidade e limitações próprias. No livro, tudo é possível. No cinema, não. A imaginação, a criatividade que o escritor coloca no texto, não pode ser sempre explícita em um roteiro cinematográfico. E nem deve ser. O trabalho autoral transforma-se em um trabalho de equipe, sob as vistas de uma direção que apontará os rumos da obra. Adaptação, é verdade, mas que poderá ser mais ou menos fiel ao original. São outras cabeças pensantes sobre um pensamento original. Alguns exemplos:

Scott Fitzgerald escreveu o conto O Curioso Caso de Benjamin Button, e o romance O grande Gatsby, ambos levados às telas do cinema. Henry James, um dos maiores nomes da literatura americana, escreveu os romances A volta do parafuso, que resultou no filme Os inocentes, e As asas da pomba, que originou o filme As asas do amor. Martin Scorsese dirigiu em 1993 o filme A idade da inocência, a partir da obra de autoria de Edith Warthon. Stanley Kubrick adorava a aproximação e a cumplicidade entre a literatura e o cinema. Exemplo dessa relação: 2001 - Uma odisséia no espaço, cujo argumento criado por ele e pelo escritordArthur Clarke originaram o conto O sentinela. Já o escritor Ernest Hemingway é o maior exemplo de um autor cuja obra já nasceu para ser filmada: O sol tabém se levanta, e Por quem os sinos dobram são exemplos disso.

Como afirmou o genial escritor Gore Vidal, autor de 24 roteiros de filmes, como Ben Hur: o roteirista é o verdadeiro gênio insubstituível por trás de um filme. Para ele, os diretores de cinema tem o apuro técnico, mas quando se trata de adaptações de obras literárias, o roteirista é indispensável para transpor para a telona a essência dos caminhos que uma obra literária mostra ou sugere.
A chuva parou. O que a mulher vai fazer? Mãos à obra. Um novo texto, quiçá um novo filme.
Boa semana!

sábado, 26 de setembro de 2009

A derradeira luta do samurai

Queridos e queridas,

Choveu de repente hoje à noite, aqui em Porto Alegre. Bem, não tão de repente, se levarmos em conta o quanto este inverno primaveril, ou esta primavera invernal estão sendo temperamentais. Esquenta, esfria, esquenta, esfria. Faz sol, cai chuva. Sob inspiração desta chuva torrencial, escolhi o filme de hoje: Depois da chuva.

Já falei Cantando na Chuva, e já falei de Antes da Chuva. Cada um e cada qual, em seu estilo, são filmes fenomenais. O mesmo digo em relação a Depois da Chuva, esta multipremiada produção de 1999, que tem o roteiro do grande mestre Akira Kurosawa e direção de seu assistente e discípulo, Takashi Koizumi. A história é baseada em um conto de Shugoro Yamamoto, sobre um samurai, o Japão medieval, e o desapego. Sim, esses são os três pontos principais que fazem deste um belíssimo e comovente filme, que só foi levado às telas um ano após a morte do grande cineasta Kurosawa.

O roteiro escrito por Kurosawa, um dos últimos antes de sua morte, apresenta a história de Misawa, um samurai sem emprego que fica com sua mulher em uma hospedaria por causa de uma chuva torrencial que se transforma em uma enchente. O samurai passa a lutar, em troca de dinheiro e em busca de alimento para os que lá estão hospedados. Sua ação passa a causar desconfiança em sua mulher, com relação aos reais interesses do samurai.

Embora trate da história de um samurai, esta não é uma história de artes marciais, tão comum em filmes japoneses. É uma obra sobre a necessidade, a importância e o valor do desapego, e também sobre as mudanças que ocorrem em uma cultura, com menos valores, menos nobreza, e mais empobrecimento,tanto material como ético.

A luta do personagem samurai é a luta de uma cultura na qual outrora predominavam valores nobres de conduta, para uma outra fase, na qual a bravura, o caráter e a humildade são muitas vezes valores relegados. Em Depois da Chuva, a principal luta do samurai não é com a espada, mas com seus próprios valores. Lutar pelo que? Lutar por quê? E por quem? Uma luta somente se justifica se for por quem se ama, seja uma pessoa, uma causa, uma coletividade.

Então, enquanto continua aqui a chover todas as lágrimas do mundo, eu fico a pensar sobre a primorosa fotografia e história de um samurai que queria ser nobre, ser bom. Acho que todo o ser humano deveria ser assim. Pergunto por que isso é tão difícil de se efetivar. A nobreza de caráter, a retidão, o equilíbrio, a harmonia... mais do que treinar a mente e o corpo, é uma questão de treinar valores e posturas diante das coisas que acontecem na vida. Somos testados o tempo todo, em nossa vida pessoal, familiar, profissional. Problemas surgem o tempo todo. Como uma chuva que surge de repente, e que de repente inunda a casa, a estrada, a cidade, transforma-se em uma enchente, que carrega tudo o que vê pela frente. Quantas vezes nossa vida se transforma e transborda como uma enchente? Como uma chuva de lágrimas?

Mas...
Depois da chuva. Vem o sol. Dias melhores. Arco-íris. O desapego é um exercício contínuo. É uma luta que temos com o nosso eu. Um desafio ao autoconhecimento. Com sua extrema sensibilidade, Akira Kurosawa, o grande mestre, sabia, e seu grande discípulo, Takashi Koizumi, também soube conduzir essa obra com uma delicadeza ímpar. Todos podemos ser samurais, lutadores, guerreiros. Mais do que escolher a espada, é fundamental saber escolher o motivo. Desapegar-se para viver. Essa é a grande e derradeira luta, o grande embate, em busca da descoberta do nosso verdadeiro "eu".
Bom domingo!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Perambulando em Dourados




Queridos e queridas,

Saudade de escrever aqui! Mas nesses dias em que estive em Dourados, no Mato Grosso do Sul, vivi momentos muito bonitos e energizantes. Fui trabalhar, participar de um evento na área de direitos humanos, o Congresso Transdisciplinar de Direito e Cidadania. Lá, palestrei e participei de outras palestras. Conheci professores e pesquisadores envolvidos e entusiasmados com a causa dos direitos humanos. Pessoas de vários estados e países, cada um falando um pouco sobre o que está acontecendo em sua região, e sobre o que estão pesquisando. Conversei com moradores da região, que embora cravada no centro-oeste brasileiro, é constituída por um número enorme de gaúchos e de outros sulistas, como catarinenses e curitibanos. Descobri pouquíssimos douradenses de nascimento, mas fui muito bem recebida por todos, todos mesmo, desde à chegada até o retorno ao aeroporto.

Fiquei com bolhas nos pés e sorriso escancarado no rosto ao caminhar pelas ruas retas e planas da cidade, povoada por muito comércio, ruas arborizadas, calçadas com rampas de acessibilidade para cadeirantes, e muito fluxo de motos e bicicletas. Descobri um café simplesmente formidável, no qual eu gostaria de pernoitar ou morar, se pudesse, até terminar de tomar todo o estoque de cafés, especialmente o cappuccino preparado naquele lugar. Fiz novos contatos, e melhor ainda, novas amizades. Em um congresso transnacional, relacionamentos transnacionais. Pessoas muito queridas, mesmo. Eu estava com muita saudade daqui, dos que me são caros, e voltei com muita saudade dos que me receberam tão fraternalmente, e os quais espero rever sempre que possível.

Cinema. Um dos motivos que lá me levaram. Apesar de não ser um pólo cultural, não ter múltiplas salas de cinema, na Universidade Federal da Grande de Dourados há o cineclubismo, e um projeto do curso de Direito denominado Cinema e Direito, com a exibição de filmes e debates focados em temas de direitos humanos. E eu tive a oportunidade e o privilégio de lá exibir o documentário que pesquisei, roteirizei e co-dirigi, Perambulantes.

Foi um momento único em minha vida. Especial mesmo. E por múltiplas razões. Não vou aqui falar sobre elas. Apenas sobre uma. A principal. Estava eu naquela cidade, naquele Estado, naquela região, onde há reservas indígenas, onde há milhares de indígenas de várias etnias que vivem ali, colados na cidade, no meio urbano. Vivem em condições precárias. Sem sustentabilidade, com crianças morrendo, com jovens se suicidando, com assassinatos de indígenas, com exploração da mão-de-obra na terra do agronegócio, nas lutas pelas terras produtivas, na demarcação de terras, na falta de uma assistência efetiva da Funai, nos preconceitos que essas comunidades enfrentam, nos seus pedidos de ajuda, de pão velho, de qualquer coisa que os ajudem a sobreviver. Continuam tutelados, 509 anos depois.

A luta pela visibilidade dos problemas que afligem as comunidades indígenas está ali, pulsante, sangrando, e aparentemente está tudo normal. É o que vemos quando caminhamos pelas ruas centrais e arborizadas e tranquilas da cidade. É o que vemos ao lermos os jornas locais. Felizmente, os professores universitários desenvolvem ações como este congresso, para abrir um debate sobre a sangria que escorre, para não mais tapar o sol com a peneira. E lá estive eu, vendo mais uma vez o filme, e desta vez juntamente com uma atenta platéia formada especialmente por alunos e professores dos cursos de direito do Mato Grosso. E por indígenas. Conversei com índios Terena que lá estudam. Um deles me disse que os índios de lá não tem perspectivas. Há motivações para morrer, e não para viver.

Talvez por ter tido essa conversa, minha fala para esta platéia foi um desabafo. Um testemunho de alguém que quando começou a fazer este filme, tinha o ideal de fazer algo que mudasse, que transformasse uma realidade tão dura como a dos indígenas. Depois me dei conta das limitações que um filme envolve. Mesmo se tratando de um documentário, um filme é e sempre será um filme. Uma história contada por alguém. Construída em imagens e sons por uma equipe, mediante uma direção que aponta caminhos, técnicas e um fim em um determinado tempo.

Após o filme ficar pronto, ser lançado, ser distribuído, caiu a ficha. Das limitações que temos enquanto realizadores para efetivamente mudar uma situação real, concreta, que exige mudanças urgentes. O filme é um poema, o filme é uma denúncia, o filme é uma história que abre várias portas: a porta da história, da educação, do direito, da antropologia. O filme é a busca de um diálogo entre etnias e culturas distintas. É a estréia no roteiro e na direção de uma aspirante a transformar problemas em soluções, e que terminou encontrando mais problemas do que soluções.

Compartilhei essas experiências e aprendizados com uma platéia especial, que participou do debate com perguntas enriquecedoras, com opiniões baseadas em visões críticas. Foi, para mim, uma aula sobre cinema e direitos humanos. E, depois de três anos trabalhando nesse tema, da pesquisa à exibição, senti um sentimento lindo e puro, como há muito não sentia: a alma leve, flutuando, por estar ali, ao lado de jovens que anseiam por mudanças. E ao injetar ânimo e coragem neles, renovei a mim mesma. Tenho certeza de que todos saíram de lá com uma visão diferente sobre a realidade indígena. Com respeito, e com a necessidade de fazer algo por eles. Como eu disse na palestra: fazer por eles é fazer por nós mesmos. Porque em tudo há uma ligação. Até onde vale a pena fazer tudo o que se faz pelo mundo do capital? Onde esse mundo está nos levando?

O que eu sei, é que enquanto houver a resistência, não haverá a extinção. Precisamos, às vezes, quebrar as regras para transformar o direito em justiça. Resumo o valor desses dias em uma palavra: gratidão.
Bom fim de semana!

sábado, 19 de setembro de 2009

Voar, viver e arriscar

Queridos e queridas,

Serei breve hoje. Estou prestes a viajar, e com um frio no estômago. Porque adoro viajar de avião, especialmente decolar e aterrissar. Aquela adrenalina da velocidade, subindo, descendo, acho muito bom. Gostaria de poder fazer isso muitas vezes. O problema em um vôo, como na vida, não está necessariamente no começo ou no fim ,mas no durante. Explico: depois que estamos no ar, tudo está bom se funciona bem, sem panes. But, se houver panes, as nossas chances são infames. Comparei o vôo à vida porque voar é uma libertação. Nos dá as asas que não temos nem teremos. Não somos pássaros nem anjos. Mas voar é também arriscar. Cruzar nuvens, desafiar os deuses. E as panes acontecem, às vezes.

Como no filme Náufrago (2000). Dirigido por Robert Zemeckis, com Tom Hanks interpretando Chuck Noland, um inspetor da multinacional FedEx. Durante uma viagem entre as várias que ele costumeiramente fazia a trabalho, ocorre um desastre, uma pane aérea filmada à perfeição. Eu diria que é a melhor cena de desastre aéreo no cinema, na minha modesta opinião. É uma agonia só. Ele acorda em uma ilha na qual vai praticamente voltar à Idade da Pedra na luta pela sobrevivência. Sozinho,por quatro anos.

O filme rendeu duas indicações ao Oscar. Tom Hanks é sabidamente um grande ator, um dos melhores, e deu tudo de si nesse papel. É emocionante testemunharmos a luta de um homem para entender por que isso aconteceu, e apesar disso, não desistir, não enlouquecer. Nem que para isso pareça um louco que conversa com uma bola chamada Wilson. Nos momentos mais dramáticos de nossas vidas, nos vemos de repente segurando objetos que nos lembram momentos, emoções, pessoas que nos são caras. Uma foto, um bicho de pelúcia, um bilhete, até mesmo um lenço de papel que lembre a rinite alérgica de alguém que amamos...

Náufrago é um filme extremamente humano. Na solidão um homem encontra a si mesmo. Às vezes é preciso naufragar, ir no fundo do poço, na tota escuridão, para nadar até à superfície, voltar para o topo, retornar a ver a luz. Voar e viver. É arriscar. Movimentos, subidas, descidas, panes. Mas muita adrenalina, também.

Então, fica aqui a sugestão para ver ou rever um filme que emociona pelo começo, pelo durante e pelo fim. E eu, agora, vou arrumar minha pequena bagagem. Com a lembrança de um almoço-surpresa especial feito pela minha filha Chef Rafaela. Com o compromisso de ver Transformers com meu filho Thomas, SEM FALTA!!!!, quando eu retornar. E pelas saudades que já tenho dos que amo e que me querem bem.
Saudades!