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escrevo a dor e o prazer de viver vivo para escapar da morte morro e acordo cada vez mais forte

sábado, 12 de setembro de 2009

Contagem regressiva

Queridos e queridas,

A proximidade de mais um aniversário evoca em mim a necessidade de repensar atitudes e pensamentos na vida. Aniversário é para mim como Natal e Ano Novo; momentos únicos e especiais, não necessariamente bons ou ruins. Não me entendam mal. Em tese - eu repito, em tese - são momentos bons, muito bons. Família reunida, mesa farta, bons presságios, presentes, e coisas que tais. Mas nem todos tem a família reunida, a mesa nem sempre é farta, os presságios podem ser maus também, e os presentes podem ser ausentes.

Aniversário é celebrar a vida, o nascimento, mais um ano de um ciclo de vida. Motivos mais do que suficientes para comemorar. Sozinho, com a família, com os amigos, e até mesmo com os desconhecidos. Olhar para alguém na rua e dizer, Hoje é meu dia, há tantos anos nasci, estou vivo!!!, não é o máximo? Não. Não basta estar vivo, com o coração batendo. Tem que fazer esse ciclo valer a pena, tem que estar de corpo e alma, fazer e acontecer, somar mais do que subtrair, mutiplicar em vez de dividir. Não é tão simples, mas não é impossível.

O presente que eu quero me dar neste aniversário é alcançar a paz interior.

Foram anos, tempos e ciclos de tornados. A calmaria na vida da gente funciona como as marés, o ciclo da lua, os movimentos de rotação e de translação...

O dia do aniversário evoca a alegria de estar vivo, e a interrogação sobre Até quando?, e Como? Essa questão me leva ao filme Uma vida em sete dias (200). Dirigido por Stephen Herek, essa comédia romântica tem como protagonistas Angelina Jolie e Edward Burns, além da participação de Tony Shalhoub. Lanie Kerrigan é uma repórter em Seattle, e leva uma vida perfeita: seu emprego, seu namorado, seu apartamento, suas roupas. Até que um mendigo vidente lhe avisa que sua vida é sem sentido e durará por sete dias. Ela passa a acreditar depois de ver que outras previsões do vidente se confirmaram. Daí em diante, a repórter passa a questionar o sentido de tudo o que tem feito, sobre as pessoas com quem tem se relacionado, e sobre a forma como tem vivido.

Por que às vezes somente na iminência de uma tragédia, ou em sua consumação, as pessoas parecem refletir um palmo adiante do seu nariz? Segundo o diretor Stephen Herek, a história deste filme trata de redenção, de uma alma em busca de uma descoberta, que é encontrar a paz interior, no lugar de uma vida superficial, demais.

Vale lembrar que após fazer esse filme, Angelina Jolie recebeu o título de embaixadora da boa-vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. Angelina conheceu ex-refugiados na Camboja, e depois viajou até a África e ao Paquistão, onde se encontrou com refugiados e voluntários.

O importante é dar valor, ser grato, e buscar ir além da superfície. E quem não conseguir ou não quiser acompanhar nesta jornada de busca de autoconhecimento, que fique, ou que vá para outro caminho. Eu não tenho mais tempo nem paciência para ir em busca do tempo perdido. Agora, é olhar para a frente, como se a vida tivesse sete dias. Afinal, nunca se sabe. E nesses sete dias, e nesses dias, viver em paz consigo mesmo.
Bom domingo!
"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe."
Oscar Wilde

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Oito anos depois

Queridos e queridas,

Oito anos depois, mais um onze de setembro, uma data que marca um dos maiores atentados da história, contra as Torres Gêmeas do World Trade Center. Morreram 19 sequestradores e 2974 pessoas de várias nacionalidades, a maioria norte-americanos. Entre os mortos, 343 bombeiros e paramédicos e 60 policiais, além de 24 desaparecidos e mais de seis mil feridos.
O onze de setembro é um dia de luto e de reflexão sobre o que o ser humano é capaz de fazer. É estranho, mas quando pensei nisso me veio na memória cenas do filme Inferno na Torre (1974) com Paul Newmann, Steve Mcqueen e grande elenco. A grande torre foi projetada para ter 138 andares, e no dia de sua inauguração, acontece o incêndio. Eu era criança quando vi esse filme, e me impressionei muito com duas coisas: as atuações de Newmann e Mcqueen (era o cinema na veia!), e as cenas de fogo, que me pareciam muito reais, causando um grande desconforto.

De 1974 para 2001 muita coisa mudou, na vida real e no cinema. Os filmes de suspense e ação se tornaram muito mais sofisticados, nem por isso mais convincentes. E eu, na manhã de onze de setembro de 2001 estava em casa, quando meu amigo Ilgo me telefona e pergunta se eu estava vendo na tv o que estava acontecendo. Eu, espantada, pergunto o que estava acontecendo, porque estava com o rádio e a tv desligados. E ele, mais espantado ainda, me disse: O mundo está acabando e tu não sabe!!

Nem sei se ele lembra desse telefonema e dessa rápida conversa. Eu nunca vou esquecer, por dois motivos: que fala para um roteiro!, e que bonito saber que em um momento terrível como aquele ele lembrou de ligar para mim. As cenas, repetidas à exaustão, mostravam as tragédias todas: das colisões dos aviões, do resgate das vítimas, dos destroços, do day after, do trauma dos que ficaram, e dos incontáveis comentaristas que falavam sobre as razões que levam terroristas a cometerem atentados como esse. Osama Bin Laden , até então um nome que passava batido na imprensa, transformou-se no maior arrasa-quarteirão para venda de jornais, matérias de tv, e, é claro, cartaz de WANTED, procura-se vivo ou morto. Um western pós-moderno onde não há mocinhos e bandidos, mas interesses políticos e econômicos conflitantes, que resultam em tentativas de manipulação da opinião pública, que resultam em invasões bélicas, que resultam em novos ataques terroristas.
Quedam os maiores símbolos do império do capital, mas não queda o capital.

Interessante lembrar que apenas dois anos antes deste atentado, o diretor Mark Pellington realizou um ótimo filme de suspense que trata da ação terrorista, O Suspeito da Rua Arlington. Com Tim Robbins e Jeff Bridges como protagonistas, o filme mostra a relação de dois vizinhos, um professor de história (Bridges) com os recém chegados Oliver (Tim) e sua esposa Cheryl (Joan Cusack). O professor suspeita das atitudes ambíguas e estranhas dos vizinhos, e passa a achar que são terroristas. Nós, espectadores, passamos também a achar suspeitas as atitudes do professor, que pode ser um maluco, ou não. Um terrorista não escreve na testa o que ele é. Mas nem todo estranho é terrorista, e nem todo terrorista é estranho. O filme nos brinda com um grande ponto de virada que torna seu final um dos melhores de filmes de suspense que eu já vi.
E para os que criticam Jeff Bridges, achando-o um ator mediano, eu volto a afirmar que é um grande ator que foi muito desperdiçado no movie world.

Num dia 24 horas chuvoso aqui em Porto Alegre, no onze de setembro que marca a terrível lembrança de mortes de inocentes, eu fico a refletir sobre o que leva um ser humano a fazer coisas como essas. Vão erguer novos arranha-céus, novas torres, novos símbolos fálicos do poder, arrogância e ganância. E mais gente inocente voltará a morrer.
Boa noite.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Encontro

Queridos e queridas,

Hoje eu vou fazer um comentário diferente dos que costumo fazer, quase sempre relacionando algum fato do cotidiano com um filme, um cineasta ou um artista. Hoje eu quero pedir o seu voto... Nunca pensei que eu ia dizer isso! Não, não sou candidata a vereadora, deputada, senadora. Nem a presidente da República ou síndica do condomínio. Peço que votem no roteiro que inscrevi no Concurso Filma Brasil, destinado a revelar talentos em curta e média-metragem. Haverá votação popular e também pelo júri especializado.

É uma agulha no palheiro. Mas eu adorei esta iniciativa. Um grupo de realizadores em cinema e apoiadores criaram esse concurso com o objetivo de divulgar vídeos de filmes nacionais, e no site estão exibidos, além dos roteiros, os previews de até um minuto e meio de cada filme inscrito. Os selecionados receberão premiação em dinheiro para realizar o filme, que será posteriormente exibido no Canal Futura. Eu dou apoio a todas as iniciativas que visem ao incentivo da produção cinematográfica nacional. Concursos, prêmios, festivais, encontros, debates, cafezinhos e rodas de amigos. Essas iniciativas são a prova viva de que há cabeças pensando, sonhando, delirando, às vezes, mas com a persistência de roteirizar filmes, produzir e dirigir filmes.

Por isso, eu peço o seu voto. Claro, desde que leiam o roteiro, olhem o preview - realizado graças ao espírito de solidariedade que reina no meu grupo, e graças a falta de recursos e patrocínio, o que - óbvio - justifica a necessidade de inscrevermos o roteiro para tentarmos o apoio que viabilize a produção deste filme. Espero, sinceramente, que gostem do que vão ler e do que vão ver. Um texto escrito com o coração, como eu costumo ser e agir na vida.

O curta-metragem se chama "O Encontro", e apresenta uma história em um mundo futurista, no qual as pessoas estarão praticamente resolvendo tudo em suas vidas através do mundo virtual. Entretenimento, negócios, decisões, e relacionamentos. Não que isso não aconteça atualmente. Mas do jeito que vai o nosso mundo capitalista pré-apocalíptico, movido a sistemas - não mais o solar, mas o bancário, financeiro, especulativo, gps, grande irmão, google earth - a tendência é de que as máquinas e a automação tomem conta de nossos espaços de convivência. Poderemos fazer quase tudo pela mediação do computador. Será??? É isso o que o filme questiona.
Uma mulher, Apple, começa a se relacionar com um homem que ela só conhece pela voz que ecoa do computador. A voz, sexy e sedutora, fala-lhe coisas belas, torna sua vida bela. Eles se encontram várias vezes, pelo computador, mas eles não se encontram de verdade. O que quer dizer se encontrar de verdade? A verdade não existe no mundo virtual? Se a mentira existe no mundo real, ela também existe no mundo virtual, e vice-versa. Mas Apple, apesar de ser uma mulher moderna, em um mundo futurista, é uma mulher que se apaixona por um homem que ela acha que conhece, que ela quer conhecer. E ele, o que ele quer? Somente o encontro entre ambos, olho no olho, frente a frente, poderá revelar? E depois do encontro, o que vem depois?

Então, divulgada a minha "plataforma eleitoral", fica aqui o convite para que acessem o site http://www.filmabrasil.com.br/ e se cadastrem, para votar no roteiro do curta-metragem O Encontro. Eu agradeço aos que me apoiarem. E aos que não apoiarem também.
Ah, e o slogan da campanha? Deixa ver... Que tal:
O encontro. Só quem ama de verdade encontra a felicidade.
Desculpem se soa piegas. Mas não é isso o que todo mundo procura encontrar?
Eu poderia dizer assim: O encontro. Só quem ama de verdade encontra a infelicidade.
Mas será que falar a verdade dá voto?
Baci!!!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Um satélite orbitando no tutano da vida

Queridos e queridas,

Quando estive no Planetário da UFRGS, em maio deste ano, fiquei simplesmente encantada ao ver a beleza e a imensidão do Universo que nos abraça. Estrelas, planetas, o sol, a lua, e a Terra, ah, a Terra. A única certeza que temos de vida humana. É engraçado que volta e meia vem a dúvida de saber se existem outras formas de vida que não as humanas. Fala-se em extraterrestres, seres bizarros, monstros. Tantos filmes de ficção científica se esmeram, uns mais, uns menos, em usar da imaginação e de efeitos para mostrar como seriam esses não terráqueos.

Mas o que realmente me preocupa não é o Apocalipse, mas o Apocalipse now, para me apropriar do nome dado ao brilhante filme de Francis Ford Coppola, de 1979. Os terráqueos humanos estão se desumanizando. Imagino um filme no século 21 assim, com a desintegração do planeta Terra, como um balão estourando no ar, pela pressão que os des-umanos exercem sobre o planeta. Não cuidam da natureza, não são solidários, poluem, consomem muitas futilidades, não reciclam, não cuidam de si e do próximo.

Um filósofo, poeta e ensaísta "muito louco", Henry David Thoreau, foi assim considerado por alguns porque ele era a favor da desobediência civil. Ferrenho crítico do capitalismo e da sociedade de consumo, Thoreau chegou a deixar de pagar impostos em sua terra natal, nos Estados Unidos (!!!) e por esse motivo foi preso. E nessa noite na prisão escreveu sobre a Desobediência Civil, eu diria que um livro de cabeceira para cabeças como Gandhi e Martin Luther King. Thoreau, para ser coerente com seus pensamentos, foi dar aulas junto à natureza, foi morar na floresta, foi desvestir-se de tudo o que representasse uma vida consumista, materialista, fútil e inútil. Plantou suas batatas e cozinhou o seu pão. Durante os dois anos em que assim viveu, escreveu o livro "Walden, ou a vida nos bosques". Walden era o nome do lago que ficava no bosque onde Thoreau morava. Nas palavras dele: “Fui para os bosques viver de livre vontade, Para sugar todo o tutano da vida…Para aniquilar tudo o que não era vida, E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!”

Da vida real para o cinema, o ator e diretor Sean Penn inspirou-se para realizar uma pequena obra-prima, "Into the wild" (2007), ou Na natureza selvagem. Emile Hirsch interpreta Christopher McCandless, um jovem que deixou para trás sua vida burguesa, que literalmente queimou dinheiro em busca de uma vida livre. Ele era um homem que queria ficar longe do homem para humanizar-se. Foi buscar na natureza selvagem, foi em direção ao Alasca, para afastar-se dos símbolos do materialismo e buscar uma aventura, uma resistência, uma purificação.
Esta história, baseada no livro de Jon Krakauer, recebeu vários prêmios, como o Gotham Awards de melhor filme, e prêmio do público como melhor longa estrangeiro de ficção na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Sean Penn foi premiado como melhor diretor no Palm Springs International Festival e no Rome International Film Festival. Emile Hirsch recebeu prêmios de melhor ator no Mill Valley Festival, National Board Review, e no Rising Star Award Actor. E a música Guaranteed, da minha alma gêmea, Eddie Vedder, foi escolhida a melhor canção no 65º Globo de Ouro.

A notoriedade desta pequena obra-prima acontece pela tentativa de alguém em ousar ser diferente. Acreditar que as coisas podem ser diferentes, e melhores. Agir de forma diferente, sem se preocupar com o que os outros pensam. Queimar dinheiro é loucura? E é menos insano viver apenas por causa dele? Viver no bosque ou ir para o Alasca é coisa de louco? E é menos louco viver asfixiado na poluição e na violência das grandes metrópoles que a cada dia se engolem mais um pouco? Viver de verdade é como diz o poeta Eddie Vedder: "Considere-me um satélite, sempre orbitando... eu conheço todas as regras, mas elas não me conhecem."
Baci!!
Guaranteed
Eddie Vedder

On bended knee is no way to be free Lifting up an empty cup, I ask silently All my destinations will accept the one that's me So I can breathe... Circles they grow and they swallow people whole Half their lives they say goodnight to wives they'll never know A mind full of questions, and a teacher in my soul And so it goes... Don't come closer or I'll have to go Holding me like gravity are places that pull If ever there was someone to keep me at home It would be you... Everyone I come across, in cages they bought They think of me and my wandering, but I'm never what they thought I've got my indignation, but I'm pure in all my thoughts I'm alive... Wind in my hair, I feel part of everywhere Underneath my being is a road that disappeared Late at night I hear the trees, they're singing with the dead Overhead... Leave it to me as I find a way to be Consider me a satellite, forever orbiting I knew all the rules, but the rules did not know me Guaranteed.

Com certeza
De joelhos não é maneira de ser livre Levantando um copo vazio, pergunto silenciosamente Todos meus destinos aceitarão aquele que sou eu Para que eu possa respirar...
Círculos que crescem e engolem pressoas inteiras Metade de suas vidas dizem boa noite para esposas que nunca irão conhecer
Uma mente cheia de perguntas, e um professor em minha alma.
E assim vai...Não se aproxime ou terei que ir Segurando-me como a gravidade são lugares que puxam Se alguma vez houve alguém que me manteve em casa Seria você...
Todos que encontro, em gaiolas que compraram. Eles pensam de mim e meus vacilos, mas nunca sou quem eles pensaram Eu tenho a minhas indignações, mas sou puro em todos os meus pensamentos. Eu estou vivo...Vento em meus cabelos, me sinto parte de todos os lugares.
Sob meu ser está um caminho que desapareceu. Tarde da noite eu ouço as árvores, elas estão cantando com os mortos Sobrecarga...Deixe comigo enquanto encontro uma maneira de ser. Considere-me um satélite, sempre orbitando. Eu conheço todas as regras, mas as regras não me conhecem.
Com certeza...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Hypatia, uma mulher de verdade

Queridos e queridas,


O diretor chileno Alejandro Amenabar realizou filmes marcantes, como Mar Adentro e Os Outros. Ele deixa novamente a sua marca, desta vez em um filme exibido com excelente repercussão no Festival de Cannes: Ágora.
No Egito Antigo, o filme apresenta a história da filósofa e astróloga Hypatia, interpretada com o talento de Rachel Weisz. Hypatia se destaca no mundo das ciências, pelos seus conhecimentos em astronomia, matemática e filosofia. Trabalhou na biblioteca de Alexandria, escreveu vários tratados, e, com apenas 30 anos, ocupou a cadeira do filósofo Plotino na Academia de Atenas.
Mas Hypatia, além de ser mulher, tinha idéias próprias, as quais argumentava e defendia com veemência: a liberdade de religião e de pensamento. Dizia, por exemplo, que o universo era regido por leis matemáticas.

Hypatia, mulher, herege, foi esfolada pelos fundamentalistas cristãos, sob a influência do bispo Cirilo de Alexandria. Hypatia foi assassinada e queimada. Cirilo, foi canonizado.

Ágora trata de dois temas igualmente importantes e atuais: o fanatismo religioso e a violência contra a mulher. Vários outros filmes, sejam documentários ou de ficção, abordam essas questões. O que Ágora tem de diferente? Reconstitui uma personagem até então à margem na própria história da filosofia e da ciência. A verdade é que há historicamente um machismo cordial, assim como há um racismo cordial, em que mulheres não são quase vistas, citadas, conhecidas e muito menos reconhecidas.
Qual é o lugar da mulher?
Na filosofia, na astronomia, na matemática? Na vida?

E quando uma mulher, além de aparecer, "ousar" pensar, argumentar, como as idéias de vanguarda de Hypatia, há um preço a pagar por essa ousadia. No caso dela, custou a própria vida e a desonra da difamação, como se fosse uma herege. Pelo fato de ter nascido mulher.
Será que evoluímos muito de lá para cá?

A aprovação da Lei Maria da Penha mostra que há avanços na legislação e na criação de algumas redes de proteção, como respostas aos crimes hediondos cometidos historicamente contra as mulheres. As mulheres eram e são violentadas, sofreram e sofrem maus tratos, foram e são usadas como "laranjas" em tráfico de drogas, e várias outras situações de humilhações. Por outro lado, as mulheres passaram a ser cultuadas pelo seu corpo, pela jovialidade da pele e da idade. A chamada mulher-objeto passou a ser tratada como "mulher" no sentido de continuar sendo uma coisa, só que agora como um objeto de consumo e de desejo, como uma propriedade masculina, a quem se delega certos direitos, a quem se atribui certas capacidades. Uma tutela que se esconde sob uma pretensa emancipação. Que de fato ainda está a ocorrer, cada vez que uma mulher se liberta dessa coisificação estética, mercadológica, social.

Os ventos da modernidade e as revoluções comportamentais, nas quais Maio de 68 é uma referência fundamental, trouxeram mudanças com uma maior liberdade de expressão, e liberdade sexual. Mas no mundo capitalista pré-apocalíptico, até a liberdade e o sexo podem ser cooptados como formas de consumo. Infelizmente, para gol do capital, muitas mulheres se submetem a esses novos padrões do ser belo, do esteticamente correto, seja pela bulimia, seja pela anorexia. Ser mulher é ser top model, é ser jovem, é ser plasticamente bela. Não ser uma mulher de verdade para ser uma mulher desejada. Triste circo, esse.

O que é ser mulher de verdade? Ora, ser mulher de verdade é ser como é, é ser o que é. O problema é que há toda uma carga de preconceitos muito arraigados no imaginário popular: mulher não sabe dirigir direito, mulher é sensível demais e por isso não pode assumir certas funções, mulher engravida e por isso deve ser preterida em uma seleção para emprego... e atriz que está passada vai para a Casa dos Artistas... e coisas que tais. Mulher que entende de filosofia, astronomia e astrologia, então... e com o nome de Hypatia...
Fiquem bem!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Anti-heróis




Queridos e queridas,

Já escrevi aqui sobre vários roteiros de filmes que foram adaptados a partir de livros. Hoje eu quero me referir a um filme que eu gostei muito, e que surgiu a partir de uma série de histórias em quadrinhos escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons: Watchmen. A DC Comics publicou doze edições entre 1986 e 1987, e a grande repercussão que teve junto à crítica e ao público levou essa graphic novel a ser a única história em quadrinhos em destaque na lista dos cem melhores romances eleitos pela Revista Time.

Watchmen - o filme, dirigido por Zach Snyder, foi lançado neste ano de 2009, e retrata com fidelidade a trama original, ambientada durante a Guerra Fria. Um grupo de combatentes do crime - os Watchmen voltam a se encontrar a partir da investigação feita por um deles, Rorschach, do assassinato de um dos vigilantes - o Comediante, que estava aposentado, após atuar como agente do governo. Várias descobertas começam a ser feitas, em um clima de suspense que envolve a participação de todos os vigilantes. Cada um mostra sua história, seus conflitos, e sua visão sobre a natureza humana. Aí é que o filme começa a ficar mais do que interessante.

O diretor que já mostrou em 300 o seu talento para os efeitos especiais, mostra aqui uma sensibilidade para aliar esses impecáveis efeitos com uma história que envolve o espectador nos dilemas vividos por cada um dos vigilantes: o truculento e irônico Comediante, o semi-deus Dr. Manhatan, o ético Coruja, o justiceiro Rorschach, a destemida Espectral e o inteligente e estrategista Ozymandias.

É muito interessante observar tanto na história em quadrinhos como no filme, que esses personagens ou protagonistas não são, na verdade, heróis ou super-heróis. Eles tem poderes, mas tem também emoções e limitações. Apesar de uma missão em comum, que é proteger a humanidade, na prática cada um o faz à sua maneira, o que pode significar, por exemplo, tomar partido a favor do governo Nixon, ou agir de uma forma anti-ética, ou agir usando de golpes baixos, ou uma diplomacia na qual os fins justificam os meios. Na verdade, eles são anti-heróis. Na cena, por exemplo, em que o Comediante dá fim a uma manifestação hippie por não violência, usando de violência, ele grita, em alto e bom som, isso é o que fizeram com o sonho americano, esse é o sonho americano!

Fala-se em paz, em ser contra a guerra, e mostra os políticos tramando complôs contra seus inimigos políticos, e utilizando-se de um discurso em nome do que é o melhor para a população; mostra o lado da mídia que só se interessa em publicar manchetes que revelem novas catástrofes, novas tragédias, porque boas notícias não vendem jornais; mostra que a justiça é um conceito relativo, a partir do que cada um considera ser a natureza humana. Se agimos por instintos de preservação e de defesa, ou se realmente somos capazes de desejar o bem e de evitar o mal. Tanto o Comediante como Rorschach tem uma visão pessimista sobre essa possibilidade. Um é assassinado, e o outro, renegado, luta consigo mesmo para descobrir a verdade. A questão central do filme é: e quando descobrimos a verdade, o que fazemos com ela? "Quem vigia os vigilantes?"

Por isso, Watchmen é um grande filme. Eu, que sou fã de carteirinha de Darth Vader e de Batman, sou doravante fã também de Rorschach. Vi um pouco de mim nesse psicopata justiceiro. Acho a máscara dele muito fashion!
Boa noite!

domingo, 6 de setembro de 2009

Fica, Guion

Queridos e queridas,

O cineasta italiano Giuseppe Tornatore nos presenteou com um dos melhores filmes de todos os tempos: Cinema Paradiso (1988). Este filme é uma homenagem aos que fazem cinema, aos que gostam de cinema. Lembro dessa história porque li hoje uma matéria sobre o fechamento do Cine Guion Sol, aqui na zona sul de Porto Alegre. Na verdade, o Cine Guion exibiu sua última sessão em julho, e saiu uma pequena nota no jornal, sem maiores repercussões. Duplamente lamentável: fechar uma sala de cinema, e aparentemente, não fazer falta. Digo "aparentemente" porque faz e fará muita falta. Especialmente na zona sul, onde cada vez mais constróem-se casas, prédios, lojas, e aumenta o tráfego de veículos. O que leva um cinema a fechar as suas portas?

No filme Cinema Paradiso, na pequena cidade de Giancaldo, na Sicília, o garoto Totó torna-se amigo de Alfredo, projecionista do cinema local. Com Alfredo, ele descobre o mundo mágico e fascinante do cinema. A mãe de Totó achava uma perda de tempo seu filho querer ir ao cinema. Nesse mundo, Totó descobriu o amor, a amizade e a paixão. Tornou-se um cineasta de sucesso em Roma, e retornou à cidade-natal quando soube da morte de Alfredo. Alfredo morreu, e o Cinema Paradiso, ao se transformar em um estacionamento, morreu também.

Cinema Paradiso ganhou Oscar e Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Recebeu o Grande Prêmio de Júri, no Festival de Cannes, o Prêmio César, o Prêmio David di Donatello (a maravilhosa trilha sonora de Ennio Morricone),
o Bafta em várias categorias, além de várias indicações.

O nome Alfredo evoca em Totó, ou no adulto Salvatore di Vitto, lembranças do maravilhoso mundo da sétima arte. De um tempo em que as pessoas se reuniam para verem um filme, para se divertir, para passar um tempo junto, para sonhar, para fugir, para amar.

Com o tempo, o cinema deixou de ser a maior atração. Veio a televisão, a internet, os shopping centers, a globalização, a pressa, ah, a pressa, todo mundo tem pressa. O ritual de ir no escurinho do cinema, a presença do projecionista, a figura do lanterninha, o matinê, o beijinho no escuro, pegar na mão da moça, tudo passou a ter menor importância diante dos altos impostos, dos custos de distribuição, das taxas do Ecad, dos aluguéis exorbitantes das salas de cinema, da falta de apoio para investimentos nessa área.
Um estacionamento rende mais... no filme, e na realidade.

Eu tenho um amigo, seu nome é Alfredo. Ele não é projecionista, é montador. Eu tenho a alegria de dizer que com ele aprendi muito, pelo seu exemplo, pelo seu trabalho, pela sua paixão pelo cinema. Sinto-me como o personagem Totó, que de criança aprendiz foi crescendo interiormente em busca de si mesmo, e do que fazer com a paixão que descobriu pela arte do cinema. Essa busca inquietante é o que aproxima e acalenta os cinéfilos, os cineastas, os realizadores em cinema. Saber que não é perda de tempo, como achava a mãe de Totó,
e que tem um valor muito, muito, muito maior que um estacionamento.

Por isso, o Guion deve ficar. Não somente pelo trabalho e pela dedicação de seus administradores, como também pelo que simboliza: Totó e Alfredo em Giancaldo, em Porto Alegre, em qualquer lugar. A sala de cinema não pode fechar suas portas. É como um filme cortado antes de seu final. Essa história não pode terminar assim.
Abraço!