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escrevo a dor e o prazer de viver vivo para escapar da morte morro e acordo cada vez mais forte

domingo, 6 de setembro de 2009

Fica, Guion

Queridos e queridas,

O cineasta italiano Giuseppe Tornatore nos presenteou com um dos melhores filmes de todos os tempos: Cinema Paradiso (1988). Este filme é uma homenagem aos que fazem cinema, aos que gostam de cinema. Lembro dessa história porque li hoje uma matéria sobre o fechamento do Cine Guion Sol, aqui na zona sul de Porto Alegre. Na verdade, o Cine Guion exibiu sua última sessão em julho, e saiu uma pequena nota no jornal, sem maiores repercussões. Duplamente lamentável: fechar uma sala de cinema, e aparentemente, não fazer falta. Digo "aparentemente" porque faz e fará muita falta. Especialmente na zona sul, onde cada vez mais constróem-se casas, prédios, lojas, e aumenta o tráfego de veículos. O que leva um cinema a fechar as suas portas?

No filme Cinema Paradiso, na pequena cidade de Giancaldo, na Sicília, o garoto Totó torna-se amigo de Alfredo, projecionista do cinema local. Com Alfredo, ele descobre o mundo mágico e fascinante do cinema. A mãe de Totó achava uma perda de tempo seu filho querer ir ao cinema. Nesse mundo, Totó descobriu o amor, a amizade e a paixão. Tornou-se um cineasta de sucesso em Roma, e retornou à cidade-natal quando soube da morte de Alfredo. Alfredo morreu, e o Cinema Paradiso, ao se transformar em um estacionamento, morreu também.

Cinema Paradiso ganhou Oscar e Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Recebeu o Grande Prêmio de Júri, no Festival de Cannes, o Prêmio César, o Prêmio David di Donatello (a maravilhosa trilha sonora de Ennio Morricone),
o Bafta em várias categorias, além de várias indicações.

O nome Alfredo evoca em Totó, ou no adulto Salvatore di Vitto, lembranças do maravilhoso mundo da sétima arte. De um tempo em que as pessoas se reuniam para verem um filme, para se divertir, para passar um tempo junto, para sonhar, para fugir, para amar.

Com o tempo, o cinema deixou de ser a maior atração. Veio a televisão, a internet, os shopping centers, a globalização, a pressa, ah, a pressa, todo mundo tem pressa. O ritual de ir no escurinho do cinema, a presença do projecionista, a figura do lanterninha, o matinê, o beijinho no escuro, pegar na mão da moça, tudo passou a ter menor importância diante dos altos impostos, dos custos de distribuição, das taxas do Ecad, dos aluguéis exorbitantes das salas de cinema, da falta de apoio para investimentos nessa área.
Um estacionamento rende mais... no filme, e na realidade.

Eu tenho um amigo, seu nome é Alfredo. Ele não é projecionista, é montador. Eu tenho a alegria de dizer que com ele aprendi muito, pelo seu exemplo, pelo seu trabalho, pela sua paixão pelo cinema. Sinto-me como o personagem Totó, que de criança aprendiz foi crescendo interiormente em busca de si mesmo, e do que fazer com a paixão que descobriu pela arte do cinema. Essa busca inquietante é o que aproxima e acalenta os cinéfilos, os cineastas, os realizadores em cinema. Saber que não é perda de tempo, como achava a mãe de Totó,
e que tem um valor muito, muito, muito maior que um estacionamento.

Por isso, o Guion deve ficar. Não somente pelo trabalho e pela dedicação de seus administradores, como também pelo que simboliza: Totó e Alfredo em Giancaldo, em Porto Alegre, em qualquer lugar. A sala de cinema não pode fechar suas portas. É como um filme cortado antes de seu final. Essa história não pode terminar assim.
Abraço!

sábado, 5 de setembro de 2009

A morte anunciada

Queridos e queridas,

Para um sábado à noite, que filme escolher? Há vários critérios. Mas eu estou sozinha em casa, o que me dá a vantagem de escolher o filme que eu quero, sem precisar negociar com meus filhos. Escapei - de novo! - de ver Transformers com meu filho Thomas. Eu ia rever Hotel Ruanda. Há vários dias que penso nesse filme. Mas ele é forte demais, toca em uma ferida que não cicatriza nunca. Um genocídio. Vou deixar para outro dia.

Optei por zapear na televisão. Faz tempo que não assisto um filme inteiro na tv. Mas quando vejo um close em Susan Sarandon, páro de zapear. Quando em seguida vejo Sean Penn olhando para ela por trás das grades, vou-me deitar no sofá. O filme está escolhido. O critério, óbvio, não foi por ser um filme menos pesado ou dramático do que Hotel Ruanda, porque Os Últimos Passos de Um Homem também é um filme denso e tenso. Mas nesse filme tem uma música do Eddie Vedder (Long Road). Quem me conhece, sabe que o Eddie Vedder é a minha alma gêmea. A melhor coisa que poderia me acontecer é passar o sábado à noite na companhia do Eddie Vedder.

Bem, voltando ao filme. Os Últimos Passos de Um Homem (1995) tem a direção do igualmente talentoso ator Tim Robbins, marido de Susan Sarandon, que ganhou Oscar de melhor atriz por sua atuação como a freira Helen Prejean, que tenta de todas as formas evitar que o condenado Matthew Poncelet (Sean Penn) seja executado pelo assassinato de dois adolescentes.

O roteiro é de Tim Robbins, baseado em livro de Helen Prejean, cuja história gira em torno do tema da pena de morte. Deve um assassino ser assassinado? Uma morte justifica outra morte? Compete ao Estado, aos governos, aos legisladores, autorizarem execuções mediante a pena de morte? Mesmo quando é legal, é ético? Um acusado é sempre, indubitavelmente, e efetivamente, o responsável pelo crime? Há cem por cento de possibilidade de executar o homem certo? E se for o errado? Como desfazer o erro?

A aplicação da pena de morte é adotada em alguns países, em alguns Estados americanos, por exemplo. Se antigamente os métodos eram notadamente cruéis, o fato de suavizarem as metodologias não diminui nem suaviza o mérito. O objetivo é matar. Uma morte anunciada. Fazer o criminoso sentir na própria pele o mal que causou a outrem. Fazer o culpado pagar pelo que fez a um inocente. Que ele sinta a mesma intensidade que fez a vítima sentir. Que agora ele seja o algoz de si mesmo. Para que não repita, para que não faça mais mal a ninguém.

É irônico e ilógico pensarmos que a pena de morte resolva as tantas causas e as nebulosas motivações que levam alguém a cometer tantos tipos de crimes, como o latrocínio, o estupro, o homicídio. Irônico, porque ainda que legalizada a execução, ela é antiética, antihumana. Em nome da humanização, nos desumanizamos... É cruel, contra o princípio da vida. Ilógico, porque se somos contra o crime, não devemos nos tornar criminosos. Se somos contra tirar a vida de alguém, não devemos tirar a vida de ninguém.

Aos defensores da pena de morte, muitos dos quais possuídos por uma dor infinita de quem já perdeu alguém querido, é mais do que compreensível esse sentimento de raiva, de necessidade de que se faça algo que signifique justiça, e a justificativa de que o cumprimento legal de uma sentença não seria suficiente. E não é, no sentido de trazer de volta alguém que morreu. Mas matar também não traz de volta. E reforça a falsa lógica de uma justiça e de um alento. Na verdade, é no máximo uma vingança. Que não é um bom sentimento.

Quando vemos neste filme o personagem Matthew reconstituir os momentos do crime, junto com seu parceiro, começamos a perceber a situação por todos os lados: das vítimas, dois jovens adolescentes, dos pais das vítimas, e dos criminosos. Houve a crueldade do estupro e do assassinato. Houve o julgamento. Mas há algo além - e isso é o que mais me comove no filme - que é o sentimento que vai crescendo com esse personagem, quase fazendo-o explodir: o arrependimento.

Existem situações na vida que são como um cristal, que quando quebra, não pode mais vir a ser inteiro novamente.

Enquanto isso, governos declaram guerras, fazem invasões, continuam a matar milhões de pessoas no mundo por desvio de dinheiro, falta de assistência à saúde e à educação, de condições sanitárias, de medidas para conter a fome e a miséria. Alguns países, abarrotados de armas, e guardando a bomba atômica. Outros, na iminência de desenvolvê-la. São ações como essas que fortificam a crueldade que é condenar pessoas à morte, o que acontece todos os dias, em várias partes do mundo.

E quem condena esses executores?
Boa noite.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O resgate do detetive Ryan

Queridos e queridas,

Não, eu não fiz um trocadilho a respeito do filme O resgate do soldado Ryan, de Steven Spielberg. Estou me referindo ao detetive Ryan, personagem de Crash - no limite (2004). O filme, ganhador de 03 Oscars, é de autoria de Paul Haggis, o roteirista do também oscarizado Menina de Ouro. É um dos meus filmes de cabeceira, embora eu não o veja com muita frequência. Por que? Porque Crash é um soco no estômago.

Quando Crash foi exibido pela primeira vezaqui em Porto Alegre, antes de concorrer ao Oscar, não teve grande divulgação nem grande público. Passou batido, como dizem por aí. Eu vi o filme e fiquei impressionada pela forma como Paul Haggis conseguiu, ao longo de duas horas, mostrar várias histórias tão distintas e tão próximas umas das outras, e todas tratando de temas extremamente importantes e delicados, como o preconceito racial, a xenofobia, a discriminação contra imigrantes.
São histórias que se ligam, em uma montagem excepcional, através de um roteiro sensível e uma direção segura, com atuações perfeitas. O filme vai passando, e a gente vai se dando conta de que em algum momento poderíamos nós estarmos ali, na tela, no lugar de algum daqueles personagens, como testemunhos ou na berlinda de algumas daquelas histórias, porque somos brasileiros, latino-americanos, brancos, pardos, indígenas, negros, misturados, excluídos, discriminados, ou porque somos brancos, capitalistas, dominadores, discriminadores, preconceituosos, excluímos, reprimimos. Em algum momento estamos em conflito, em choque, em uma colisão - seja com os outros, seja com nós mesmos, seja pelos outros, e por nós mesmos.

Quem de nós já não vivenciou ou testemunhou alguma situação de racismo? De injustiças cometidas contra alguém por esse alguém ser, por exemplo, pobre, negro, índio, velho, sem-teto, deficiente mental ou físico? Os personagens de Crash estão em Los Angeles, mas poderiam estar em qualquer lugar: tem a branca rica e esposa de um político branco, dois assaltantes negros, um detetive negro e sua namorada, uma policial mexicana, um diretor de tv negro e sua mulher negra, um iraniano dono de uma loja, um casal coreano, um chaveiro mexicano. E tem um veterano policial branco e preconceituoso, seu nome é Ryan. Interpretado por um impecável Matt Dillon, Ryan é, para mim, o que simboliza a história central de Crash. A vulnerabilidade do ser humano. Ryan é no começo do filme um policial truculento, capaz de cometer abusos com base em sua autoridade e farda, ao abordar um casal negro em seu carro, à noite. Ryan não se importa em humilhar a mulher, diante de seu marido. Ryan descarrega ali, naqueles minutos, seu ódio, seu poder, suas frustrações. Ryan é um homem amargo, que cuida de seu pai, que está muito doente. E Ryan também está doente, por ser um policial que já viu de tudo e se deixou contaminar pelo que viu. Não acredita no ser humano, não acredita em valores, não acredita.

Por uma ironia do destino, é Ryan quem resgata a mesma mulher negra que molestou, em um grave acidente de carro. Ele literalmente salva a sua vida, e se aterroriza quando percebe o mal que fez aquela mulher. Ele também, por um momento, resgata a si mesmo. Percebe a atitude sem sentido que cometeu. Ryan é um homem indigno de si mesmo, pelo que deixou fazer de si. É possível voltar atrás? É possível ser diferente? É possível mudar?
Ryan, e outros personagens destas colisões que vão se fechando em um grande círculo existencial, passam por situações em que precisam ver para onde vão, e de que modo vão afetar a vida dos outros. Às vezes fazemos coisas que vão afetar sensivelmente a vida de pessoas que não ou mal conhecemos. Negar ajuda a quem precisa, por exemplo, pode ser fatal. Abraçar alguém que mal conhecemos, em um momento extremo na vida dessa pessoa, pode ser fundamental. Crash mostra isso: precisamos nos dar conta do que fazemos, ou deixamos de fazer, por causa de pensamentos ou gestos estúpidos calcados em racismos e preconceitos. É possível nos resgatarmos?Ou a colisão será inevitável...
Bom fim de semana!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Quatro dias

Queridos e queridas,

Eu tenho tantos assuntos para resolver que nem as noites insones tem sido suficientes para dar conta. Porque não é só uma questão de tempo, mas de ter energia e disposição para fazer tudo direito. Cansada, o risco de errar aumenta. Para descansar, a melhor terapia: ver um filme. Ver O filme. Optei hoje por um clássico no gênero drama e romance, de e com um diretor e ator que não erra nunca, nem insone, nem cansado, nem quanto mais o tempo e a idade passam: Clint Eastwood.
Eu já vi vários filmes dirigidos e produzidos por ele, ou com ele atuando. Em vários gêneros. Embora ele tenha ficado mais conhecido no início de sua carreira pelo jeito durão, seja nos filmes western ou como Dirty Harry, ou ainda pelo seu charme e por uma sensualidade viril, Clint Eastwood é um grande cineasta, tem uma sensibilidade que o distingue e nos faz esperar sempre um filme melhor do que o outro, é o mínimo que se espera dele. Sobre Meninos e Lobos (2003) e Menina de Ouro (2004) são exemplares. Por coincidência (?) estava passando hoje na tv o filme Os imperdoáveis, com Clint em grande forma e estilo. Mas eu preferi ver As pontes de Madison (1995). Por que? Simplesmente porque esse é um dos melhores filmes que eu já vi.
As Pontes de Madison (Bridges of Madison County) é um filme baseado no romance de Robert James Waller, com roteiro de Richard La Gravenese. Dois irmãos se reecontram após a morte de sua mãe (Meryl Streep). Eles descobrem, nas cartas que ela lhes escreveu, o romance que ela teve durante quatro dias com um fotógrafo (Clint Eastwood), enquanto seu marido e filhos haviam viajado. Essa descoberta, que incialmente causa uma certa revolta e perplexidade, vai levando-os a uma nova descoberta, de conhecerem sua mãe, suas motivações, suas renúncias e suas escolhas, o que vai fazê-los repensar sobre seus próprios relacionamentos.
Este filme é de um cuidado impressionante, com diálogos lapidados, com prenúncios de cenas que não vão nos deixar intactos. Não há como não se deixar envolver com o envolvimento que passa a acontecer entre os protagonistas. É como o destino. Não o programamos, mas ele acontece. Não o chamamos, mas ele vem. Como um dia após o outro. Em quatro dias ela ficaria sozinha. Em quatro dias ela viveu sua maior e mais profunda paixão, sua verdadeira história de amor. Em quatro dias ela viveu o paraíso do jogo de sedução, da descoberta de um erotismo que já nem lembrava existir, de conhecer-se como uma outra mulher que na verdade era ela mesma. Ela viveu, nesses quatro dias, o inferno de saber que um dia tudo terminaria, que de seu sonho acordaria, porque competia a ela, e somente a ela, escolher, entre ficar ou partir. Deixar uma vida e partir para outra vida. Satisfazer seu desejo e carregar sua culpa. Em quatro dias, foi feliz e foi infeliz, foi desejada e desejou ardentemente, foi amada e amou como nunca, foi decidida e confusa, atravessou pontes que nunca havia imaginado atravessar.
Quando o final do filme se aproxima, percebemos qual será sua escolha. Amor e família às vezes são questões de múltipla escolha. Quando ele fala para ela que não poderá espremer toda sua vida em quatro dias, ele resume tudo, todo o sentido do filme. A sincronicidade está ali. Um chegou até o outro porque tinham que ter chegado. Porque de alguma forma teriam que ter se conhecido. O problema é o que fazer a partir do encontro. Encontro de almas? De corpos? De momentos? De escolhas? Apenas um encontro. Em quatro dias. Que valeu por toda a vida.

O filme é belo. O filme é triste. Quando terminei de ver, vim para cá escrever. Termino lembrando de um poema, um hai-kai, que eu escrevi há muito tempo, que me ocorre agora, ao relacionar com esse filme: Não viola minha morada. Dá-lhe vida. E, depois, vai embora.
Desencontro de corpos. Permanência de almas. Bom é saber que nas pontes há sempre dois lados. A ida e a volta. Esse é o mistério da vida: o destino, e a sincronicidade. Mesmo que seja por quatro, três, dois, ou um dia. Abraços!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A grande guerra

Queridos e queridas,

O mais antigo festival de cinema do mundo, o Festival de Veneza, foi criado em 1932. Sua 77ª edição começou nesta quarta-feira,e prossegue até o dia 12. Entre os destaques, as homenagens para o brasileiro Walter Salles, o italiano Giuseppe Tornatore, e o também italiano Mario Monicelli, que há extatamente 50 anos recebia nesse festival o Leão de Ouro pelo filme
A Grande Guerra.

O filme foi exibido em uma cópia restaurada recentemente pela Cineteca Nazionale de Bolonha. Realizado no ano de 1959, A Grande Guerra conta com as atuações de Vittorio Gassman e Alberto Sordi, como dois soldados italianos, Oreste e Giovani, que durante a Primeira Guerra Mundial são chamados para se alistar no Exército. A contragosto, vão para o front de guerra, onde tentam fazem de tudo para preservar suas vidas, em vez de lutar por patriotismo. A Grande Guerra é um drama com as pitadas de humor típicas da poética cinematográfica de Monicelli, o mesmo cineasta de clássicos como Parente é Serpente.

Monicelli tem 94 anos. Apesar da idade avançada - e que não interfere em nada em seu vigor físico e intelectual - ele e sua obra são pouco conhecidos e divulgados no Brasil. Um pouco por conta da pouca divulgação que os filmes italianos, de um modo particular, e europeus, em geral, tem em nosso país em comparação com os filmes norte-americanos. E um pouco por conta da necessidade que a Itália tem de resgatar a importância e o valor do cinema, do incentivo à realização de filmes italianos, tanto de cineastas consagrados, como de cineastas emergentes.

Monicelli filmou uma grande obra sobre o absurdo da guerra. Assim como filmou sobre a hipocrisia da instituição família. Sua comédia não foi feita para o riso fácil e inconsequente. Às vezes, o riso dá lugar ao silêncio. O silêncio dá lugar ao protesto. Como a manifestação realizada por dezenas de jovens, na abertura do Festival, contra Silvio Berlusconi,
que determinou um corte nas subvenções culturais.

Para Monicelli, a comédia italiana passa por uma crise de identidade, que reflete a própria crise da cultura. Em tom irônico, ele declarou em entrevista no Festival que a maior obra literária italiana de todos os tempos é a Divina Comédia. A obra é realmente uma referência mundial na arte. Mas e depois? O que veio depois? No cinema, na arte italiana em geral? Quais são os incentivos dados para a produção cinematográfica italiana? Resume-se esse país a shows de tevê, cômicos pastelões e enlatados de grandes redes, como a do magnata das comunicações
e todo-poderoso do governo italiano, Berlusconi?
A Itália está mais conhecida hoje pelo futebol que importa craques brasileiros, pelos escândalos sexuais e gafes de Berlusconi, e pelo símbolo que é de uma história eirigida pelo amor às artes. Mas esse símbolo não pode ser apenas uma nostalgia. É como se fôssemos olhar um museu para relembrar os grandes momentos do passado. O cinema italiano tem uma pulsação, uma verve, uma sensibilidade fulminante que não pode ficar no passado, e nas prateleiras dos grandes filmes, dos grandes cineastas e dos grandes artistas. Nas exibições em cópias remasterizadas. A Itália precisa reacender sua identidade cultural mais profunda, que está muito além de governos medíocres, de redes de comunicação alienantes. Monicelli, com a lucidez e a inteligência sarcástica de seus 94 anos, é a melhor prova de que o cinema italiano ainda tem muito a fazer e a mostrar para o mundo e para a Itália. Nas palavras de Monicelli: "É necessário lutar contra a hegemonia de países mais fortes comercialmente, mas fracos em seus valores culturais, para manter viva uma herança que teima em se
transformar em escombros como aqueles de uma guerra".
A grande guerra começa quando desistimos de lutar por aquilo em que acreditamos.
Boa noite!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O poderoso

Queridos e queridas,

Fui devolver os vídeos na locadora, quando começou a se anunciar um temporal. Após alguns breves dias de sol e calor, o inverno reclama o seu lugar. Então, a atendente apressou-se em me entregar dois DVDs: As pontes de Madison, e O Poderoso Chefão. Nada mal para uma noite insone chuvosa. Prestes a voltar com chuva, ainda assim resolvi ir no supermercado, porque Grapete e chocolate não poderiam faltar. Meu Olhos verdes foi me buscar. Percebi então que a noite chuvosa seria uma clarão de luz para terminar o meu dia.

Grapete, chocolate, e O Poderoso Chefão. Melhor do que isso, foi ver meu Olhos verdes imitando Don Vito Corleone. Impagável, sensacional. Fiquei maravilhada, imaginando que eu estou com um novo Marlon Brando!

Marlon Brando que aliás, não era bem visto pelos produtores quando o diretor Francis Ford Coppola o indicou para atuar no filme, cuja história foi baseada no best seller escrito por Mario Puzzo. A responsabilidade e o desafio de Coppola eram imensos: fazer um filme que tivesse no mínimo o mesmo sucesso que o livro, e convencer os produtores de que o principal papel deveria ser do bad boy Marlon Brando, assim como o outro importante papel, do filho Michael Corleone, deveria ficar com aquele rapazote que eu só reconheci pelas olheiras, pois parecia mais Andy Garcia:
o grande e até então jovem e desconhecido Al Pacino.

O poderoso Coppola venceu. Não levou, por incrível que pareça, o oscar de melhor diretor, apesar de O Poderoso Chefão (1972) ter recebido 03 Oscars: melhor filme, melhor ator e melhor roteiro adaptado, além de inúmeros outros prêmios. A belíssima música de Nino Rotta é outro destaque do filme, assim como as atuações de um grande elenco, com Diane Keaton, James Caan e Robert Duvall.

A história gira em torno da saga da "família" Corleone, entendendo-se família como um clã de mafiosos italianos em disputa com outros clãs. Brigas de famílias. Babel de famílias. Não estamos falando mais da Máfia, mas de famílias, de um modo geral. Caim e Abel em todos os tempos e lugares. Don Vito Corleone também era um pai de família, um avô de família, também tinha princípios. O maior deles não era o culto ao dinheiro e ao poder. Era a lealdade. Quem era desleal, pagava o preço mais alto que se pode pagar, com a própria vida. Don Vito Corleone sabia que há negócios rentáveis, muito rentáveis, e talvez por serem escusos são tão rentáveis, como bebidas, armas, mulheres. Como cooptar juízes e policiais, formar uma rede de proteção para a preservação dos negócios e da família. Don Corleone também sabia que envolver-se com drogas seria uma droga para si, para os negócios e para a família. Don Corleone é um homem sábio.

Coppola estava coberto de razão quando declarou neste ano que O Poderoso Chefão é um filme completo, sem a necessidade de continuação, embora seu final, com Michael assumindo-se como Don Corleone, sob o olhar incrédulo de sua esposa, já demonstre que a saga dos mafiosos estava apenas começando. Quando há luta pelo poder, por dinheiro, cobiça, não há fim, apenas trégua, como já falava o sábio Corleone. Na trégua entre a guerra e paz, o melhor estrategista analisa como driblar e aniquilar o inimigo. A morte de Sonny, filho de Don Corleone, e do próprio Godfather, foram apenas o começo da estratégia, levada adiante por seu filho, em nome da preservação da família, dos negócios, e pela lealdade.

O filme é simplesmente um dos maiores filmes da história do cinema. O temporal cancelou sua vinda, a chuva diminuiu seu ritmo, a luz não faltou. Reverência total a um clássico.
Agora, a grapete e o chocolate, amanhã vou comprar mais.
Beijos!



segunda-feira, 31 de agosto de 2009

um pedido de socorro

Queridos e queridas,

Gosto sempre de ver ou rever os filmes de Woody Allen. Ele escolhe temas, e os apresenta de uma forma que eu gosto, com a qual me identifico. Seja pelo sarcasmo, pelas tiradas filosóficas, pela fina tragicomédia, pela sensibilidade e argúcia com a qual ele roteiriza, atua e filma questões humanas, afetivas, existenciais.

Tudo o que é simples e é complexo ele mostra em diálogos sempre interessantes e instigantes. Um dos temas que é cada vez mais atual, o qual ele filmou em 1998, é sobre as Celebridades.
Celebrity reúne um elenco de famosos, como Kenneth Branagh, Wynona Ryder, Charlize Theron, Melanie Griffith e Leonardo DiCaprio. Artistas que são celebridades intepretando celebridades, à exceção de Branagh, o protagonista que é um repórter aspirante ao mundo das celebridades. De tanto conviver nesse mundo, com o qual se identifica, o repórter tenta se ambientar às situações nas quais se vê envolvido. Nessas situações rola muito sexo, drogas, narcisismo, non sense, bulimia, o vale tudo na busca da fama e da fortuna.
Às vezes, muito mais pelos famosos 15 minutos do que pelo dinheiro.

O que Woody Allen mostra não são os 15 minutos de fama, mas os intermináveis segundos de agonia daqueles que não fazem parte desse meio, e nem farão. Não porque não tenham talento, ou porque não trabalhem, ou porque não tenham ideais. É simplesmente porque nada disso é o que realmente importa nesse meio. Golpe de sorte, oportunidade, visão, estratégia, enfim, podem haver vários outros fatores, que não simplesmente seguir o caminho do meio.

Esta sátira do mundo das celebridades pode às vezes parecer clichê, meio superficial. Na verdade, eu creio que esse é um mundo superficial. Cheio de clichês. Faz parte de estar inserido nesse meio. Ou pelo menos, de aparentar estar, como é o caso do frustrado e fascinado repórter. Ele renega suas origens, atribuindo toda a sua frustração à ex-mulher e ao casamento falido. Ele busca pelo novo, o que encontra em uma nova mulher, e depois em outra, em uma nova situação, e depois em outra, e no fundo, ele não encontra em nada, e em ninguém.
Ele não encontra a si mesmo.

O Help! inscrito nas nuvens, na cena que dá início e fim ao filme, já diz tudo. Woody Allen já avisa o espectador desde o começo: Socorro! Essa é a vida que eu realmente quero? O que eu realmente quero? Alguém pode responder por mim? Não? Então, Help!!!!
Beijos!