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escrevo a dor e o prazer de viver vivo para escapar da morte morro e acordo cada vez mais forte

domingo, 9 de agosto de 2009

Banho de chuva

Queridos e queridas,

A chuva torrencial neste inverno torrencial em Porto Alegre me inquieta. Olho pela janela, e não me atrevo a sair de casa. Escuto música, Radiohead e Lenine. Um café e depois um chá. Outro café e outro chá. Continua chovendo. Thom Yorke e Lenine estão quase afônicos. Então eu ameaço sair, encarar a chuva, fazer alguma coisa que não seja trabalhar.
Mas fazer o que?

Tomar um banho de chuva.

Já fiz isso quando criança, e é algo lúdico, inesquecível. Já sonhei em fazer isso quando jovem, estupidamente romântica, em um encontro amoroso tendo os corpos ardentes molhados pela chuva...

E agora, faria isso para desafiar São Pedro. Insanidade ou ousadia? Talvez as duas coisas. Uns dançam para pedir chuva. Eu pensei em dançar para celebrar a chuva, para transformar um dia de tédio em um dia de graça. Mas daí fiquei sem graça. Lembrei que minha idéia fenomenal já tinha sido usada - e como! - no longínquo ano de 1952. Em uma das cenas mais lindas do cinema, de um dos filmes mais famosos do cinema, um dos grandes clássicos entre os musicais já produzidos em Hollywood. Cantando na chuva.

O filme, indicado ao Oscar, é protagonizado por Gene Kelly, Donald O'Connor e Debbie Reynolds, sob a direção do próprio Gene Kelly e Stanley Donen. Na história, o cinema falado passa a substituir o cinema mudo, e os artistas precisam se adaptar a essas transformações. Algumas curiosidades desta produção referem-se ao roteiro, feito após as canções que compõem o filme terem sido definidas, e à sequência de gravação da épica cena de Gene Kelly cantando e dançando na chuva, chuva esta composta por água e leite, e totalmente gravada em estúdio.

Uns adoram musicais, outros detestam. Há ainda os indiferentes. Mas Cantando na Chuva agrada a gregos e troianos. Quem ousa desdenhar da eternidade do momento desta dança? Gene Kelly estava em transe. Alegre, ele canta, e dança, e canta, e dança. E seu canto e sua dança formam um grande sorriso, um sorriso que brota de todo o seu rosto, de todo o seu corpo.

Olho pela janela para a chuva torrencial, e fico a imaginar que na casa vizinha Gene Kelly acaba de se despedir de sua amada, com um beeeeeiiiiijjjoooo. A porta se fecha, e ele parte, cantando, dançando, agradecendo aos deuses pela eternidade do momento ao qual só se atribui um único nome, o mesmo em todas as línguas, religiões e culturas: felicidade.

As gotas de felicidade caem, torrencialmente. Ele as recebe com os pés nas poças d'água, ele as sente no rosto, ele as sente sob suas roupas. Gotas, torrenciais, de felicidade.
Adivinhem o que Thom Yorke, Lenine e eu queremos fazer agora?
Boa semana!

Singing in the rain (Gene Kelly)

I'm singing in the rainJust singin' in the rainWhat a glorious feelingI'm happy againI'm laughing at cloudsSo dark up aboveThe sun's in my heartAnd I'm ready for loveLet the stormy clouds chaseEveryone from the placeCome on with the rainI have a smile on my faceI walk down the laneWith a happy refrainJust Singin', singin' in the rainDancing in the rainI'm happy againI'm singin' and dancin' in the rainI'm dancin' and singin' in the rain

sábado, 8 de agosto de 2009

O gato preto de Edgar Allan Poe

Queridos e queridas,

"Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram. " Assim começa a história do conto O Gato Preto, uma das grandes obras escritas por Edgar Allan Poe, um dos grandes escritores de todos os tempos. O Gato Preto iria se transformar em filme, com Bela Lugosi e Boris Karloff no elenco, sob a direção de Edgar Ulmer. Foi o filme de maior bilheteria da Universal Pictures
no ano em que foi lançado, em 1934.

O terror que respinga das páginas e páginas escritas por Poe, não é esse tipo de terror hollywoodiano regado a efeitos especiais. Não mostra o fantasma, mas a sua sombra. Não mostra o cadáver, mas o seu vulto. Não grita, sussurra. Não explicita, sugere. É realmente terror de primeira linha. Algo que quase não se vê mais em escritos e filmes. Porque escrever uma história de terror é bastante difícil, bem como transpor essa história para o cinema. Tem que transmitir veracidade, tem que sensibilizar o leitor/espectador, tem que convencer pelo subtexto. Tem que fazer o medo exalar por todos os poros, o suor escorrer abruptamente.
A pessoa querer largar o livro, esconder o dvd, dormir com a luz acesa.

O romancista e poeta americano teve uma vida aterrorizante. Com apenas dois anos, sua mãe morre e seu pai desaparece. Quando adolescente, tem que lidar com a loucura e o suicídio de Jane Stanard, mulher por quem se envolvera emocionalmente. Nessa época, Poe é visto perambulando solitariamente em volta do túmulo de Jane. Envolvido com jogos, boemia, dívidas, embriaguez, Poe ia se consumindo por seus próprios fantasmas, os quais exorcizava escrevendo os mais fantásticos contos de terror de todos os tempos.

Sem dinheiro, sem família, com depressão, e com a autoria de obras como A Queda da Casa de Usher, Willians Wilson, Os Crimes da Rua Morgue, neste último criando o personagem-detetive Dupin, predecessor de Sherlock Holmes, e que inaugura o gênero Policial. Lançou ainda sua primeira coleção de contos: Contos do Grotesco e Arabesco.
Em 1844, concluiu seu famoso poema O Corvo. O Poço e o Pêndulo, O Retrato Oval, O Coração Revelador, O Gato Preto, O Escaravelho de Ouro, e Histórias Extraordinárias
são outras obras extraordinárias de Poe.

O produtor e diretor Roger Corman realizou diversos filmes com base nos escritos de Poe, como as histórias que deram origem à trilogia Contos de Terror (1962). O filme A Queda da Casa de Usher, com a marcante atuação de Vincent Price, inaugura a série de filmes dirigidos por Corman a partir dos textos de Poe. Corman também adaptou para o cinema o texto poético O Corvo. No elenco, além de Vincent Price e Boris Karloff, o então jovem Jack Nicholson. Outro filme fantástico é Máscara Mortal da Orgia da Morte. Vincent Price interpreta um príncipe adorador de Satanás que se encontra com uma misteriosa figura de vermelho.
Uma cena que eu queria ter rodado, Do conto Pequena Palestra com uma Múmia: Um não-morto, considerado morto, ressuscita. O tido como cadáver acorda, e passa a conversar com os que estão diante dele. Os diálogos entre os vivos e o cadáver insinuam medo e pavor sobre o que aquele ser poderá fazer.
Com Poe aprendemos que o maior terror é aquele que nos persegue dentro de nós mesmos. Brota de nossa imaginação. Das culpas, dos traumas, das fobias, dos pesadelos, das perdas. Poe foi fundo, fundo demais na sua alma e na mente humana. Não há nada mais apavorante do que o medo da intimidade, do gato preto à espreita de nós e de nosso espelho. Bom domingo!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Os Roses e a rosa

Queridos e queridas,

Caminhava eu hoje pela Rua da Praia, onde não tem praia, mas tem uma praça linda e bucólica, a praça da Alfândega. Chovia, fraquinho. Fim do dia, fim da semana chegando. Mais frio, mais chuva, mas um domingo diferente, domingo do dia dos pais.

Há nove anos que meus domingos mudaram radicalmente. Meu pai fazia churrasco todos os domingos, com chuva ou sem chuva, com frio ou sem frio. Às vezes, aliás, muitas vezes, eu chegava na casa de meus pais, meus filhos eram pequenos, para o almoço em família. Meu pai estava lá, naquela churrasqueira provisória e improvisada, com uma espécie de capô de carro antigo a fazer de conta que era o telhado. Ele se protegia da chuva, e o churrasco, parece que ficava melhor ainda. A churrasqueira improvisada e provisória ficou, definitivamente. Ele, que deveria ter ficado definitivamente, nos deixou, há nove anos. Assim. Um dia amanhece, um telefonema do hospital, e pronto. Nunca mais nos veremos novamente.

Continuo a gostar de churrascos, e de domingos em família. Mas os dias dos pais me entristecem. Hoje fui em uma loja, comprar um presente para o pai de meus filhos, que também faz aniversário em breve. Talvez a gente almoce junto, ou no domingo dos pais, ou no dia do aniversário dele, assim como há poucos dias, quando jantamos juntos para comemorar em família a formatura de nosso filho mais velho. Interessantes estas famílias modernas... desfazem-se os laços, desatam-se os nós, mas fica o carinho, o respeito, a lembrança das coisas boas. É, eu diria, um tipo de amor. Altruísta, bondoso, generoso. O amor pelo tempo passado, pelo tempo perdido, pelo tempo esgotado. O amor a que Proust se referia, em sua indelével busca... "Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais intensa, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças?"

As famílias de hoje são o cruzamento de famílias novas, de famílias miscigenadas, transmutadas, reatadas, desatadas. São os filhos dos pais sep, sep, sep (traduzindo, separados), como meu filho mais novo se referiu, uma vez, ao voltar da escola sem saber por que em uma ficha havia a anotação: fulano, pais sep. beltrano, pais sep, e assim por diante... Naquela época em que ele me perguntou, eu ri muito, achei divertido, expliquei para ele o que era, e emendei: Nós não, nós somos cas. Mas de cas para sep é jogo rápido. Parece que será eterno, que é tudo o que a gente queria na vida. Como os churrascos de domingo, com chuva ou sem chuva, com frio ou sem frio. Daí, puff. Um novo dia, um telefonema, uma palavra, um gesto. Ou a falta de tudo isso. It's over. Fade out.

Assim foi na inteligente comédia A Guerra dos Roses (1989, direção de Danny De Vitto). Michael Douglas e Kathlenn Turner são Olivier e Barbara Rose. Após 18 anos de casamento, querem (querem?) o divórcio, e querem (querem?) a mansão, a louça, a prata, o rabo do gato, o tapete do banheiro, a capa do cd, o dvd arranhado... querem se odiar, querem se magoar, querem extravasar todas as mágoas, as frustrações, os fracassos, as culpas. Querem exorcizar, querem sublimar, querem se amar. E não conseguem mais. Do amor à guerra, puff. Bush pai e Bush filho que o digam. Perto deles, os Roses não sabem de nada...

Ouvia em meu vagaroso caminhar pela rua da praia sem praia, uma moça comentando pelo celular que havia comprado o presente para seu pai. Um par de sapatos. Ela estava feliz. Eu fiquei feliz por ela. Lembrei das Lojas Ughini, do sapato Vulcabrás preto. Nunca mais tive que voltar lá.
Agora, se eu pudesse, sairia no meio deste temporal que deságua nesta madrugada toda a minha tristeza, em lembrar da ausência de meu pai. Queria sair agora e comprar uma rosa.
Meu carinho a todos os meus amigos, que são pais.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Ele, ela e os olhos verdes

Queridos e queridas,

Hoje quebrei meu próprio recorde. Só virei noites inteiras sem dormir trabalhando, na etapa de montagem de alguns vídeos ou na véspera de entregar algum projeto. Fora isso, são noites insones, algumas madrugadas que teimam em me carregar com elas para testemunhar que sempre é possível um novo dia emergir. Mas hoje foi demais esse testemunho. Eu queria escrever e tentar ir dormir. Daí o meu computador congelou totalmente. Entre eu e este blog estavam abertas dezenas de janelinhas indesejadas, inoportunas, invasoras mesmo.

Como são algumas pessoas e algumas situações em nossa vida. Chegam de repente, e de repente partem. Congelam nossas vidas, nem que seja apenas por um interminável milésimo de segundo.

Os relógios param, as pilhas vazam, os cronômetros zeram, o Big Ben deixa de tocar, e o Clock Tower fica com seus ponteiros londrinos absolutamente desregulados. Com os batimentos cardíacos, idem.
Assim acontece na vida. Nocaute. O problema não é a chegada do problema, mas a sua partida.
Como se levantar?
A escritora, roteirista e cineasta Marguerite Duras trouxe algumas reflexões a respeito. Nascida na Indochina francesa, escreveu muito, e variadamente. Foram peças de teatro, novelas, e obras como O Amante, A Dor, O Amante da China, O Deslumbramento. Entre as obras adaptadas para o cinema está O Amante. O filme recebeu o prêmio Goncourt, foi traduzido para mais de 40 línguas e levado às telas por Jean-Jacques Annaud. Outro de seus trabalhos conhecido é o roteiro de Hiroshima mon amour, de Alain Resnais, uma das obras primas da Nouvelle Vague.
Em O Amante, existe Ele,existe Ela. E a relação arrebatadora. O nocaute.

Também nocauteantes são os textos recolhidos no livro Os Olhos Verdes. Esta publicação resultou de vários textos que Duras escreveu para a Cahiers du Cinéma. Ela fala, por exemplo, sobre o seu compromisso consigo mesma, de fazer um filme para poucas pessoas, porém com fidelidade ao que acredita, sem se render a qualquer tipo de pressão. É claro que isso resultou em trabalhar com produções baseadas em orçamentos ridiculamente baixos. Mas Duras era dura (desculpem o trocadilho estapafúrdio). Ela optou por pensar e realizar uma produção cinematográfica que fosse fiel às suas concepções, mesmo que essa relação não resultasse em grandes obras, ao alcance de um grande público. Isso se resumiu em uma coisa: ela só fez o que quis fazer. Eis aqui uma resposta para se levantar de um nocaute.
Bom dia!

Olhos Verdes (Gonçalves Dias)

São uns olhos verdes, verdes, Uns olhos de verde-mar, Quando o tempo vai bonança; Uns olhos cor de esperança, Uns olhos por que morri;
Que ai de mim! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Como duas esmeraldas, Iguais na forma e na cor, Têm luz mais branda e mais forte, Diz uma — vida, outra — morte;
Uma — loucura, outra — amor.

Mas ai de mim! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! São verdes da cor do prado, Exprimem qualquer paixão, Tão facilmente se inflamam,
Tão meigamente derramam Fogo e luz do coração

Mas ai de mim! Nem já sei qual fiquei sendo depois que os vi! São uns olhos verdes, verdes, Que podem também brilhar; Não são de um verde embaçado, Mas verdes da cor do prado,
Mas verdes da cor do mar.

Mas ai de mim! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Como se lê num espelho, Pude ler nos olhos seus! Os olhos mostram a alma, Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;

Mas ai de mim! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Dizei vós, ó meus amigos, Se vos perguntam por mim, Que eu vivo só da lembrança De uns olhos cor de esperança,
De uns olhos verdes que vi!

Que ai de mim! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Dizei vós: Triste do bardo! Deixou-se de amor finar! Viu uns olhos verdes, verdes, uns olhos da cor do mar: Eram verdes sem esp’rança, Davam amor sem amar! Dizei-o vós, meus amigos,
Que ai de mim! Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Natural e Sobrenatural

Queridos e queridas,

Começo de outra madrugada. Tomo uma xícara de café para fazer companhia à insônia. Hoje eu gostaria de poder deitar, dormir e sonhar com um bom filme. Mas como não conseguirei fazer isso, vou imaginar aqui sobre qual filme eu gostaria de sonhar. Alguma coisa light, uma comédia, por exemplo. Neste momento, a única que me ocorre não parece ser muito adequada para um sonho: Morte no funeral.

Ocorre que este filme, realizado em 2007 sob a direção de Frank Oz, apresenta, óbvio, uma morte e um funeral. Até aí, nada de cômico. Mas quando uma família completamente desajustada se reúne para velar o patriarca, um estranho aparece para fazer uma chantagem que vai desencadear diversas situações bizarras e hilariantes. Pronto. A morte virou comédia. É a única vez em que podemos rir diante da morte, quando um bom filme assim é feito.

Esta produção alemã, inglesa e norte-americana, reúne um roteiro com piadas muito bem feitas, de um humor inteligente e corrosivo, e um elenco afinadíssimo. A grande piada gira em torno de uma típica família inglesa, do alto de seu poder aquisitivo e costumes burgueses. Por trás dessa máscara, porém, há inúmeros segredos e ciúmes entre os parentes.

No filme tem um filho que quer ser correto o tempo todo, um filho que quer ser incorreto o tempo todo, um potencial parente que se droga sem querer e passa a fazer maluquices, um anão homossexual que quer chantagear a família, e um patriarca que, quando vivo, era um cidadão acima de qualquer suspeita, e que, depois de morto,
deve enterrar consigo o seu passado obscuro.

O filme Morte no Funeral é simples e é refinado, ao mesmo tempo. As piadas são simples e igualmente refinadas. Sem subestimar o espectador, sem querer forçar piadas nem para o grosseiro, nem para o sem-graça, do tipo quanto-menos-gente-entender-melhor-é-a-piada. O filme funciona por isso: porque é despretensioso, é simples. No cenário, na idéia central. Não lida com o tema da morte de forma a subestimá-la, ou, pelo contrário, superestimá-la.

Morrer é isso aí, cair duro de repente, e de repente parar de respirar. É ponto final. O resto é fazer o funeral. Aí sim é que começam a emergir os problemas, no mundo dos vivos. O morto está ali, tranquiiiiiiilo. Tem todo o tempo do mundo para dormir, para descansar. Enquanto isso, aqueles que muitas vezes pareciam ter sido os seus melhores amigos, os seus parentes de sangue que mais lhe adoravam, quando se vê, pufff, começam a aflorar ora sutil, ora escancaradamente, as ciumeiras, as fofocas, as disputas ora veladas, ora declaradas, pelo legado da vítima. E não é legado moral, é patrimônio mesmo. Esquecem que o morto tem ouvidos, e pelo fato de estar ali, quietinho, não significa necessariamente que não está vendo, ouvindo ou sentindo em algum ponto, em algum lugar, o que passaram a fazer dele, além de considerá-lo uma estátua rígida.

Não há nada de cômico nisso, e infelizmente, acontece em muitos velórios, em muitas cerimônias do adeus. Chegam, lacrimejam com um olho, e com o outro, um tempinho depois, estão na casa do falecido fazendo churrasco na churrasqueira que ele não usava mais, mexendo nas coisas que ele relutava em usar. Como diz o ditado dos tempos capitalistas pré-apocalípticos:
a fila anda!!!
Essa cena do churrasco não está em Morte no Funeral. Eu vi acontecer. Fiquei chocada e ao mesmo tempo incomodada comigo, por pensar que não cabe a mim julgar. Mas não consegui ficar indiferente. Se fosse no filme de Frank Oz, teria sido uma cena cômica, com certeza. Mas era real. E não tinha graça nenhuma presenciar a ausência de uma pessoa amiga, e testemunhar a presença de pessoas estranhas.

A morte é natural. A vida? Sobrenatural.
Abraços!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Antes de tentar dormir

Queridos e queridas,

Apesar de não ter praticamente dormido na noite anterior, cá estou neste novo começo de madrugada. São três horas da manhã e a pergunta que me faço é: sobre o que escreverei hoje?
O cansaço, a noite mal dormida, somada à necessidade de dormir daqui a pouco, de qualquer jeito, me tira a inspiração. Penso até em me dar folga, levanto, sento de novo, sinto-me culpada por deixar as linhas em branco, a coluna sem texto. Mas por que, se afinal, eu escrevo se quiser, e se não quiser não escrevo, e nada vai mudar? Porque, dentro de mim, pulsa a necessidade compulsiva de dizer algo. Não sei nem o que, ou porque, mas é necessário.

Bem, então já temos um começo de texto, e de inspiração. Às vezes fazemos coisas na vida sem sabermos exatamente o motivo, mas fazemos. Às vezes nos damos um dia de folga, mas não sabemos como aproveitar esse dia. Às vezes nos sentimos culpados, o maldito sentimento de culpa desvelado por Freud e que se apresenta, impiedoso, diante de nossas ações, inações e intenções. Por que fiz isso? Por que disse aquilo? Ou, por que não fiz nem isso nem aquilo, por que não falei, ou por que falei demais?
Quando um cineasta, e especialmente quando um jovem cineasta capta essas sensações - que vão da impotência à onipotência, do nada ao tudo, do desejável e do necessário, podemos imaginar que veremos um bom filme. Ou um filme excepcional, como é o caso de Antes da Chuva, uma produção realizada no ano de 1994 por Milcho Manchevski. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, e indicado em 95 ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Esse foi o longa de estréia desse jovem diretor, hoje com 49 anos e vivendo nos Estados Unidos. Nascido na extinta Iugoslávia, Manchevski inovou na forma de abordar, com um roteiro interligado por três histórias que se complementam e se tornam uma só, solitária e sólida história de amor. Amores em meio a confrontos de fundo religioso, político, e de um profundo vazio existencial. Todos os personagens vivenciam de alguma forma esse vazio, essa gratuidade da vida diante da iminência de uma guerra, movida pelo fanatismo religioso, pelos interesses políticos. O pano de fundo de Antes da Chuva é exatamente essas reviravoltas políticas que afetam a Macedônia e repercutem em Londres. Que perpassam o mundo muçulmano do Oriente e o mundo cristão do Ocidente, o comunismo do Leste Europeu e o capitalismo do Oeste. Palavras, rostos e imagens são os títulos das três histórias.
Na minha modesta opinião, este filme foi decisivo, um divisor de águas para outros diretores se inspirarem para realizar histórias formadas por recortes, mosaicos, forçando o espectador a ficar atento para todos os detalhes, todas as sutilezas e as reviravoltas no roteiro. Cineastas como Inharritu possivelmente beberam dessa fonte. Antes da Chuva é para mim uma obra-prima, porque os personagens tem uma densidade tão forte, mas tão forte, que o pano de fundo da guerra, da discriminação étnica, dos atentados, tudo fica coadjuvante se comparado à força do olhar, da palavra de cada personagem em cena. Não é um filme fácil. Não é um filme para ser visto por multidões. É um filme para ser apreciado, degustado, refletido, compreendido.

Compreender que o vazio existencial é algo tão forte, é um buraco no estômago que atravessa a humanidade como a bala que explode uma cabeça em um restaurante. Que um amor de um monge por uma garota refugiada é algo tão digno de beleza e tão impossível em um mundo que divide as pessoas em compartimentos, muralhas, rótulos. Que uma que mulher ama o marido e ama o amante, carrega a culpa mortal como o preço a pagar pelo amor que sente. A mesma mulher que diz para o marido que quer se divorciar dele também diz que o ama. Sinceramente.

Somos humanos, contraditórios. Humanos. Esse filme carrega essa humanidade com poesia, com uma fotografia belíssima, que retrata um recorte do mundo que não tem beleza, senão crueza. Crueza essa que terminou por levar, no mundo real, à guerra entre bósnios e sérvios, e a aniquilar a vida da Iugoslávia. "Eu quero me divorciar de você, mas eu te amo". E a Iugoslávia sumiu do mapa.

Bem, como eu não sabia sobre o que falar, optei por falar sobre o que sempre saberei falar. De meu filme predileto, Antes da Chuva.
E dedico esse post ao meu querido filho Thomas, que fez para mim um café preto maravilhoso, o que me permitiu terminar essas mal traçadas, antes de tentar dormir.
Beijos!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Corta!

Queridos e queridas,

Minha mais recente incursão cinemaníaca foi para a produção de um preview de um minuto e trinta segundos de duração. É uma insanidade, e é um desafio. Como gosto de coisas insanas e de desafios, lá fui eu. Os detalhes deste trabalho eu falarei outro dia. Hoje quero aqui me reportar aos cortes. Porque, para chegar nestes exatos um minuto e trinta segundos, há que se cortar, e muito. E, apesar desses cortes, manter uma coesão narrativa e técnica que dê qualidade ao trabalho. Eu avisei que é insano e que é um desafio.

Eu ainda estou sob o efeito dos cortes. Por isso, a palavra corte me fez lembrar de um filme bem interessante de um cineasta que gosta de abordar o desafio de viver em um mundo autoritário e insano: Costa-Gavras.

Konstantinos Gavras, o nome entrega que é grego, apesar de ser naturalizado francês e viver nos Estados Unidos, é conhecido e reconhecido por ter feito filmes como Z, e Desaparecido, exemplos de obras nas quais aborda o tema da ditadura militar. No filme Z (1969, Oscar e Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro), Costa-Gavras denuncia as violações cometidas durante a ditadura militar na Grécia. Em Missing (1982), ele retoma o tema da ditadura no Chile, no governo de Augusto Pinochet. Outro tema polêmico, além da política, é o que abordou no filme Amém (2002).
A história mostra relações da Igreja Católica com o Nazismo.

Mas eu falava em corte. Costa-Gavras faz um corte em seus trabalhos anteriores com a realização de um de seus mais recentes filmes, cujo tema, desta vez, tem um viés mais voltado para a crítica econômica, do capitalismo global e o seu pior legado: o desemprego. O Corte (2005) apresenta um executivo realizado em seu trabalho, em uma fábrica de papel. Após ser demitido junto com vários colegas, por causa de um corte nas despesas da empresa, ele passa a conhecer um lado da vida que até então ignorava. Durante três anos, ele tenta um novo emprego, por saber ser qualificado, experiente, competente, leal e etcetera e tal... e percebe que "só" isso não é suficiente para voltar a ter um lugar ao sol no mundo capitalista pré-apocalíptico.
Há vários outros que também são competentes, experientes, qualificados, leais e etcetera e tal... e igualmente desempregados. A concorrência torna-se cada vez mais acirrada, e quase todos perdem para as máquinas. Talvez um fique com a vaga. Então, o protagonista desempregado percebe que, para vencer o desafio nesse mundo insano, terá que ser igualmente insano e encarar o desafio: cortar, literalmente, todos os que estiverem atravancando o seu caminho.

Humor negro, cáustico, ou simplesmente, uma viagem de Costa-Gavras pelo mundo do inconsciente coletivo de uma penca de trabalhadores que até hoje, em 2009, integram ou estão às vésperas de integrar o batalhão dos desempregados, dos subempregados, dos free lancers, dos autônomos, dos comerciantes informais, dos segurados-pelo-desemprego, dos explorados pelos estágios intermináveis, da economia informal, da exploração explícita ou implícita do labor humano. Trabalha-se muito, emprega-se pouco, valoriza-se quase nada. E corta!
Boa noite!