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escrevo a dor e o prazer de viver vivo para escapar da morte morro e acordo cada vez mais forte

terça-feira, 7 de julho de 2009

Talento, fama e o maiô vermelho

Queridos e queridas,
A atriz Farrah-Fawcett foi enterrada discretamente, e discretamente a imprensa noticiou que ela deixou em seu testamento parte de sua fortuna para mulheres vítimas de violência doméstica. Farrah atuou no filme Cama Ardente (1984), no qual interpretou uma mulher violentada pelo marido. Por sua atuação, foi indicada ao prêmio Emmy. Mas a imagem de Farrah ficará sempre vinculada à loira pantera do maiô vermelho. Eu achei muito curiosa esta declaração da atriz: "Os homens admiram as mulheres mais pela beleza do que pela inteligência, porque enxergam melhor do que pensam". A loira pantera era mais do que bela, e sabia muito bem o valor que seu sorriso e seu maiô vermelho tiveram para ser famosa, não para ter reconhecido o seu talento.
Talento e fama. Eis aqui dois itens que normalmente fazem parte do meio cinematográfico. Normalmente, porque nem sempre quem tem talento fica famoso, e nem sempre quem é famoso tem talento. O ideal é que um (a fama) fosse consequência natural do outro (talento). Mas não é. O outro célebre enterrado hoje, M. J., tinha talento e fama. Foi graças ao talento que cantou e encantou platéias de todo o mundo, que dançou e criou um estilo único. Com a fama que se alastrou pelos cantos do planeta, o seu próprio talento saiu de controle, do controle emocional.
Reconhecer as próprias habilidades, capacidades, vocação, como uns preferem chamar, já não é tarefa simples. Exige autoconhecimento, humildade para reconhecer limitações e para estar sempre disposto a aprender. Como conciliar essas habilidades com o repentino, muitas vezes fugaz e efêmero sucesso? O que isso implica, muda, transforma, e melhora a vida de um artista?
Melhora a conta bancária, o assédio, os novos negócios.
A imagem. Imagem é tudo, já dizia aquele slogan... E, de novo, vem o fantasma do equilíbrio emocional. De saber lidar com o que vem de verdadeiro, e de ilusório. Lembrem-se dos manequins a que M. J. se referiu, e ao sarcasmo de Farrah ao se referir aos homens. Muitos artistas fazem o jogo de cena, continuam interpretando mesmo quando estão fora de cena. Se tiverem que se deparar com o seu próprio ego, não saberão o que fazer. A diferença entre a vida privada e a pública é separada por uma foto, por um "furo" no jornal.
Quando os artistas envelhecem, e com as mulheres isso acontece a partir dos quarenta, o talento passa a ter mais valor do que a fama. Na verdade, com raras exceções, artistas outrora renomados e galãs, tornam-se vovôs, titios, coadjuvantes dos coadjuvantes.
No mundo acelerado em que vivemos, não há tempo para cultuar a memória, para respeitar a sabedoria, para passar o bastão para as gerações mais jovens. Muitas vezes esses jovens aspirantes querem começar pela fama, esquecendo do talento.
E não é que o maiô vermelho de Farrah ainda funciona?
Hoje, o show do enterro. Amanhã, se morrer algum outro grande ícone mundial, haverá outra super-cobertura, o "circo" ao qual Elizabeth Taylor se referiu. M.J. era o homem solitário mais rodeado pela multidão que eu já vi, em meus 43 anos. Mas ele me lembra aquele personagem de Edgar Allan Poe. Solitário na multidão. M. J., cantando e dançando para espantar os males. Libertava-se pelo talento, e aprisionava-se pela fama. Até mesmo depois de morto. Afinal, para quem ainda fica, o show tem que continuar...
Abraços!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Gargalhadas

Queridos e queridas,

A vida é movimento. Em uma frase, o que eu penso, o que pensava Heráclito, filósofo nascido na segunda metade do século VI a.C., em Éfeso. Em vez de acompanhar os políticos, ou tornar-se um deles, Heráclito preferiu a vida solitária. Preferia as crianças aos adultos. É dele também a declaração "O tempo é uma criança brincando; o poder real é o de um menino" (fragmento 32). Eu também concordo. Não gosto de propagandas, em geral, porque na maioria das vezes a publicidade é a ilusória forma de embalar um produto que não tem um conteúdo que preste. Marketing político, por exemplo. Mas tem um comercial em que um bebê solta uma gargalhada tão linda, mas tão linda, que eu curo minha depressão no mesmo instante em que vejo a cena e escuto o riso.
Terapia pura. Um sorriso, uma gargalhada, e todos os problemas desaparecem. Heráclito era sábio. Sabia que o dia se torna noite, o inverno vai e vem o verão, e assim por diante. Tudo se movimenta, se transforma. Até a luta é a harmonia dos contrários. Enquanto nossa mente racionaliza, nossos sonhos fantasiam. Percebemos o mundo pelos sentidos, pela razão, e pelo conflito dos contrários. Dialética. Somos o contrário de nós mesmos, frente e verso da mesma página. Ontem éramos rascunho, hoje somos passados a limpo, amanhã apagaremos ou passaremos a ferro, e depois de amanhã... quem sabe?

Um dos cineastas mais sensíveis de todos os tempos transmitia essas metamorfoses e conflitos do ser humano: Akira Kurosawa. Apesar de ter popularizado o cinema japonês no Ocidente, muitas vezes não foi compreendido em sua terra natal, sendo criticado pela ocidentalização de seus filmes. Foram 32 obras com dramas realistas, filmes históricos samurais, filmes onde o que importava era expor os conflitos e os fantasmas psicológicos. Era um cineasta perfeccionista, que atuava desde o roteiro e direção, até o corte final com o montador. Seu cinema era movimento, o conteúdo de seus filmes movimentava-se o tempo todo, mesmo quando não havia quase narrativa. Os cenários, a fotografia, a beleza, a eloquência de um olhar, de um silêncio. Por ser como era, conquistou a admiração de cineastas como Francis Ford Coppola, Scorsese, George Lucas. Entre suas obras, estão Rashomon (1950), Dersu Usala (1975), Sonhos (1990). Nesta obra-prima, Akira Kurosawa apresenta oito episódios. Todos diferentes, todos em comum. Os fanstasmas do inconsciente se revelam de múltiplas formas. De uma mesma forma estética - poética. Como, por exemplo, o encontro do alter-ego do cineasta com Van Gogh, interpretado por Martin Scorsese.

As obras-primas de Akira Kurosawa foram escritas com o coração. Que pulsa, que pára. Tic. Tac. Como sonhos, que a gente tem, que a gente não tem. Como gargalhadas. Como lágrimas. Movimento heracliteano, nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, e nunca um filme de Kurosawa é o mesmo.
Hoje, um sonho meu, que não é só meu, começou a se realizar. Movimento, gargalhadas. É o coração, batendo mais rápido. A gargalhada de uma criança. Da criança que existe em mim. Que sábio, esse Heráclito! Nada como um dia após o outro.
Beijos!

domingo, 5 de julho de 2009

He is the man!

Queridos e queridas,

A Organização das Nações Unidas-ONU está sediada em Nova Iorque, mas não é, por natureza, uma instituição norte-americana. A ONU foi fundada por 51 países em 24 de outubro de 1945, com o objetivo de atuar como um organismo internacional que mantenha a paz entre as nações. A Carta das Nações Unidas, assinada pelos países-membros fundadores, entre os quais o Brasil, é um compromisso e um tributo em respeito aos direitos humanos fundamentais e universais, à preservação da paz e da segurança mundial. Passados 64 anos desde sua criação, muitas outras guerras se sucederam à Primeira e à Segunda Guerras Mundiais. Violações aos direitos humanos são cometidas todos os dias, em todos os cantos do planeta. Torturas, genocídios, golpes de Estado, guerras forjadas para justificar interesses bélicos, econômicos e políticos.
A ONU retrocedeu. Embora seja a mais nobre e louvável iniciativa criada após os horrores do Holocausto, a ONU que deveria ser exemplo de uma organização humanitária, sem fins políticos e sem esmorecer diante de pressões de toda ordem, foi se desvirtuando de seu verdadeiro papel, de sua verdadeira missão, que era, que deveria ser e que sempre deverá ser a manutenção da paz e do espírito solidário entre as nações.

O diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello declarou, certa vez, que "a globalização e a liberalização comercial trouxeram riquezas para muitos, mas a distância entre ricos e pobres - países ricos e pobres e pessoas ricas e pobres dentro dos países - está aumentando". Vieira de Mello era Alto Comissário para Direitos Humanos da ONU, e foi assassinado em um atentado terrorista no ano de 2003, em Bagdá. Vieira de Mello dedicou 34 anos de vida à defesa dos direitos humanos, atuando em zonas de conflito na África, Ásia, Oriente Médio.
Vários aspectos de sua vida militante são contados no livro escrito pela jornalista Samantha Power, O homem que queria salvar o mundo. Vieira de Mello inspirou a realização de documentários, como Sérgio (2009), com direção do norte-americano Greg Barker, e um outro projeto desenvolvido pelo cineasta irlandês Terry George, roteirista de Em Nome do Pai, e diretor de Hotel Ruanda. Barker afirmou que enquanto ele e sua equipe investigavam as causas da explosão em Bagdá, passou a se perguntar sobre os motivos de haver tanta hostilidade por parte de certos grupos islâmicos com relação à ONU e sua missão no Iraque.
Porque a ONU retrocedeu. É um órgão internacional que se curva diante de pressões de países poderosos, como os Estados Unidos (basta lembrar dos podres poderes do ex-presidente Bush por ocasião da invasão do Iraque). A ONU possui centenas de funcionários abnegados, altruístas, idealistas, humanitários, como era Sérgio Vieira de Mello. Mas tudo isso em meio a um caldeirão de interesses por cadeiras e cargos em órgãos de sua estrutura, como o Conselho de Segurança, por exemplo.
E daí eu leio que o presidente do Brasil poderia estar interessado em ocupar o cargo de Secretário-Geral da ONU. Há razões para isso: a impossibilidade constitucional de um terceiro mandato; o charme e o prestígio de ser alçado ao mais alto cargo do mais importante organismo internacional, e no caso dele sem saber falar qualquer outro idioma além de português; a possibilidade de realizar discursos de combate à fome, de erradicação da pobreza, e blá blá blá, um discurso político perfeito para período de campanha eleitoral com vistas a um terceiro mandato. E com o aval de Barack Obama, que o definiu como "He is the man!"
É por essas e outras que a ONU retrocedeu, que grupos cada vez mais hostilizam, ironizam e são indiferentes à ONU. Porque a ONU não tem poder, porque a ONU age a serviço de outros poderes, porque representantes da ONU discursam em prol dos necessitados, de dentro de seus gabinetes, eventos e reuniões de notáveis.
Assim como está, a ONU não passará de uma bela vitrine para políticos de todos os continentes. Se para os poderosos for conveniente elogiar um presidente latino-americano e permitir seu ingresso no Clube dos Notáveis Defensores da Humanidade, olhando-a do alto, mas visando seu próprio umbigo, creio que uma candidatura do presidente Lula tem boas chances. Carisma, popularidade, retórica não lhe faltam. Aliás, isso é tudo o que precisamos no planeta para dar uma vida digna a todos, de verdade. Sérgio Vieira de Mello fez isso, na prática. Viveu fazendo isso, morreu fazendo isso. Merecia ter sido secretário-geral. He was the man. Mas será que nesta ONU, não naquela de 1945, há espaço para merecimento?
Fiquem bem!

sábado, 4 de julho de 2009

Os esquecidos e os esquecimentos

Queridos e queridas,

Estava eu hoje à tarde no salão Eliese, com meus cabeleireiros -sim, no plural, pois eu tenho o privilégio de ter um casal de amigos lindos, queridos e talentosos, Régis e Eliese, e duas meninas super queridas que trabalham com eles, Lise e Michele, e todos eles cuidam de mim.
Pois eu folheava uma revista dessas que a gente lê no salão, na sala de espera do consultório, e eles, brincando, me perguntaram se eu sabia que Michael Jackson tinha morrido. Afinal, é o assunto da hora, inclusive das revistas. E lá fui eu folhear a edição especialmente dedicada a M.J.
Essa leitura não me impediu, no entanto, de ler nos jornais locais, e de acompanhar pelos diversos sites de notícias, que o ex-presidente José Sarney manda dizer ao povo que fica! Não importa se ele esqueceu de declarar ao Rei Leão que possui uma mansão, que não é Neverland. Afinal, o Excelentíssimo Senhor Atual e Duplamente Eleito Presidente da República do Brasil não se importa com tal esquecimento. Muito pelo contrário, cruzou o Atlântico para vir a uma reunião de emergência junto ao seu partido, dito de esquerda, para democraticamente afirmar Fica Sarney. E Sarney Fica.

E isso me faz voltar no tempo, e lembrar do início da fase de redemocratização do Brasil, quando Tancredo Neves seria o primeiro presidente pós-anos-de-chumbo. E veio Sarney. E veio Collor, Itamar... e nesta frágil e adolescente nação, foi eleito um operário, um trabalhador, que simbolizaria a mudança para um outro mundo possível, com menos desigualdades sociais, com menos corrupção, menos impunidade, menos colarinho branco, menos direita volver.

E neste modelo político nefasto cada vez mais me convenço da total inutilidade da existência do Senado, e emerge com mais força política, com mais poder, o ex-presidente Sarney, o vice que assumiu o lugar daquele que seria a esperança de um país realmente democrático e livre do clientelismo, da cooptação política e da subserviência aos militares.
Vejo um homem poderoso, que circula de cabeça erguida declarando que esqueceu de declarar uma mansão. E fica por isso mesmo.

Enquanto autoridades governamentais "esquecem" de declarar bens, um outro grupo de esquecidos cresce vertiginosamente no Brasil. São os sem-mansão, sem-renda, sem-teto, sem-emprego, são os sem. Como no filme Os Esquecidos (1950), uma obra-prima de Luis Buñuel, na qual um adolescente foge de um reformatório para voltar a uma vida miserável. Certamente, pessoas assim, sem poder, não podem se esquecer de nada. Por isso vão para reformatórios. presídios. Porque são pessoas comuns, reles mortais. Sem foro privilegiado, sem carteiraço, sem.

Enquanto isso, as revistas destacam a morte de M.J., aqui nos pampas se alardeia a Gripe A, os adesivos contra o Crack! (eureka! descobriram a solução, todo mundo cola adesivos e se conscientiza!), e ali, em um cantinho insignificante, como se diagramam notícias de menor importância, está o senador Sarney e sua declaração triunfante: diga ao povo que fico. E o presidente - não, não é do Sarney que estou falando - saiu da reunião que teve com lideranças de seu partido, e voltou a cruzar o Atlântico. Para Paris, de avião. As lideranças, ficaram a ver navios. Na reunião democrática, a ordem foi clara: deixem o Sarney em paz. Afinal, foi apenas um esquecimento. Ou um ato falho?
Fiquem bem, apesar de.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Não ao besteirol americano

Queridos e queridas,

Quando eu soube que Michael Jackson morreu, minha primeira reação foi um grande sentimento de tristeza. Eu sempre admirei suas músicas e sua dança. Mas a minha segunda reação, como produtora, foi pensar: Quem vai interpretar Michael Jackson no cinema? Quem lê meus posts, sabe. Escrevi sobre isso no dia em que ele morreu. Eu não falei nada de genial, mas às vezes, por incrível que pareça, realizar idéias, por menos complexas que sejam, nesta área do audiovisual, transformam-se em tarefas hercúleas, dantescas, sísifas.
É natural, é óbvio, elementar, meu caro Watson, e até Michael Jackson sabia que um dia alguém iria querer interpretá-lo. Aliás, as pessoas começaram a fazer isso de novo, como forma de homenageá-lo, como forma de relembrar os sucessos musicais de outras décadas, e que agora, com a ironia da morte, voltaram a ser novamente Hot Hits. As músicas mais baixadas, os cds mais vendidos, os pirateados mais procurados, e assim por diante.
Mas a interpretação a qual refiro aqui é no cinema. O Moonwalker ainda não foi enterrado, e produtores especulam quais seriam os atores ideais para contar a história de M.J. Quando negro poderia ser Jammie Fox, e quando esbranquiçado, seria Johnny Depp. Ótimas escolhas. Mas a questão é saber por que essa pressa em definir atores, em fazer esse filme? É sobre isso que tenho três pensamentos a compartir.

Primeiro: Os produtores. Produtores são seres às vezes quase não humanos. Faz parte do ofício. Devem estar neste momento negociando com a família, especialmente a mãe, arrolada no testamento de M.J. para cuidar de seus filhos e de seus bens. Mas também com o pai, o bad man, que pode render uma boa história. Imaginem a versão dele para os fatos. Com Diana Ross, amiga de M.J., pessoa-chave para acelerar negociações. Termos, direito de uso de imagem, documentos, revelações, assinaturas, contratos. Os bastidores do filme.
Segundo: O protagonista. Como Michael Jackson é um ídolo, um ícone, o rei do Pop, ele é o protagonista de uma biografia recheada de ingredientes hollywoodianos. O roteiro de sua história está praticamente definido. Falta apenas o grand finale, que está prestes a acontecer, em poucos dias, quando ele for sepultado. Os preparativos para a cerimônia do adeus estão sendo calculados, no melhor estilo do american way of life and death, com a distribuição de ingressos, a escolha do local (onde M.J. fez o seu último ensaio), com as redes de tv divulgando a conta-gotas as imagens de seu último ensaio, com os sites bombando novas e novas manchetes a respeito da maternidade e da paternidade de seus filhos, da disputa pelos bens, e daqui a pouco, da debandada para não assumir as suas dívidas. Um verdadeiro show. Falta só definir os coadjuvantes, os artistas que farão suas últimas homenagens, tributos, depoimentos emocionados, e things like these.

Terceiro: A história. Todas as biografias tem algo a revelar. A de M.J. tem tudo a esconder. Daí o mote para um filme interessantíssimo.
Infelizmente, creio, com mais uma idéia que não tem nada de genial, que os produtores muitas vezes preferem o caminho mais fácil, rápido e certo do lucro, do que o caminho mais lento, mais difícil, e nem sempre o mais cheio de cifras. M.J. é um artista único, e por isso merece um filme digno, à altura de sua arte. E não mais um besteirol americano.
Abraços!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Jack, gremista ou colorado?



Queridos e queridas,
Estou cansada, as olheiras encostando na ponta dos pés. Pode ser o efeito do jogo de ontem. Deu a lógica. Mas tem lógica no futebol? Ontem, eu estava indo para casa em uma lotação. Ficamos parados por no mínimo meia hora, por causa de um arrastão vermelho e branco que invadia a Padre Cacique, em frente ao estádio Beira-Rio. Quando vi, estava passando ao meu lado o ônibus com o time do Internacional. Eu via um a um pela janelinha, e ouvia os cantos, gritos e urros dos torcedores, eles realmente acreditavam na falta de lógica, na realização do sonho. Fomos acordados do sonho rapidinho, um, dois gols. Mesmo estando "em casa", com um estádio lotado por verdadeiros torcedores, nacionalistas, fanáticos, fervorosos, ou simplesmente, colorados. Em vão. O sonho de um não é o mesmo de outro. Dos corintianos, por exemplo. De ontem para hoje o sonho colorado transformou-se drasticamente: desovar os estoques de fogos de artifícios para comemorar a derrocada de seu arquiinimigo, dos azuizinhos. Certamente, o sonho dos azuizinhos ontem concretizou-se. E agora, o sonho colorado pós-derrota está se confirmando. Os azuizinhos também foram acordados de seu sonho, com um, dois gols. Que sina! Ambos rivalizam, ambos sonham, ambos ganham, ambos perdem.
Assim no futebol, assim na vida.
Pessoas que não sonham enlouquecem. Pessoas loucas são sonhadoras. Pessoas que não enlouquecem e que não sonham, também não vivem. Vivem, mas não viiiiiiiveeeeem. Se alguém está entendendo o que estou tentando dizer, é que são os sonhos, mesmo os irrealizados ou os irrealizáveis, que insuflam as pessoas a serem otimistas, a criarem projetos, a inovar, a mudar, a romper barreiras, defesas, a viver, enfim.

Conheci um "cara" no cinema que para mim simboliza o ser humano no século XXI no mundinho pré-capitalista-apocalíptico. O nome dele é Jack Torrance, casado, um filho pequeno. Ele é escritor, e está desempregado. Aceita fazer um bico como vigia em um hotel. O isolamento de Jack e a compulsão por tentar escrever algo sem ter algo para escrever em sua máquina de datilografar desencadeiam um dos melhores filmes de Stanley Kubrick, com Jack Nicholson, no gênero terror e entre os melhores de todos os gêneros. O Iluminado (1980), baseado no livro de Stephen King, The Shinning, reúne a magnífica interpretação de Jack Nicholson, o perfeccionismo de Kubrick, que chegou a rodar uma centena de vezes uma cena com a atriz Shelly Duvall, e movimentos de câmera originalíssimos, quando se usou pela primeira vez a steadycam, invenção de Sam Raimi.
O que o escritor-Jack-ator-Jack tem a ver com o ser humano-século-21? A pasmaceira. "All Work and no Play makes Jack a dull boy". No mundo do trabalho, quando há cada vez mais concorrência e menos oportunidades, os homens correm mais, se estressam mais, bebem, fumam, se matam. Só conseguem sonhar sob medicação, ou quando dormem.
No mundo do dinheiro pelo dinheiro e da falta de sonhos, fica o registro da grande obra literária de Jack Torrance, aquele livro que ele escrevia com tanta vontade em sua máquina de escrever: MUITO TRABALHO E POUCA DIVERSÃO FAZEM DE JACK UM BOBÃO.
Seria Jack gremista ou colorado?
Sonhem!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Marley e eu e o rottweiler

Queridos e queridas,

A cena em que o fabuloso ator Gregory Peck foge de um cemitério, sob a perseguição de cães rottweiler, é uma seqüência de tirar o fôlego. Conseguirá ele escapar ileso? Mesmo que sim, no filme A Profecia (1976, direção de Richard Donner), o cão rottweiler é a encarnação do demônio, que protege fielmente (como todo cão protege seu dono), no caso, um menino tão lindo quanto maligno - o AntiCristo. O menino cresceu, e a profecia foi se concretizando ao longo do primeiro, do segundo, do terceiro filme. Um quarto, feito para a televisão, e uma refilmagem.
Acho o rottweiler um cão tão bonito quanto intimidador. Perfeito para o papel no filme. Se o demônio fosse feio, não seria tentador... Bem, mas o fato é que bonito e querido e amigo de todos é, por exemplo, o cão labrador. Como o protagonista do filme Marley e Eu, comédia de 2008 dirigida por David Frankel, com base no livro de John Grogan. Eu não vi o filme porque eu não gosto de chorar por antecipação. Esse filme consta como comédia, mas é daquelas comédias que fazem tanto rir como chorar. Porque o protagonista é o melhor amigo do homem, é verdadeiro, é fiel, leal, é capaz de fazer tudo por aquele a quem ama, respeita, confia.
Hoje pela manhã, caminhando sob o sol que não é de Toscana, vi um lindo, robusto, massudo e classudo rottweiler caminhando sob o mesmo sol que não é de Toscana. Ele assustava as pessoas e seus cãezinhos. Ele intimidava os pastores trancafiados nos jardins, e ele não estava nem aí. Contemplava a areia, o Guaíba, parecia estar em férias. Perdido? Certamente. Ou quem sabe, estava ele lá como eu, a procura de respostas, de novos caminhos...

Liguei para o 190. Não podia deixar aquele imenso cão, com fama de guardião do AntiCristo, que só fica famoso nos jornais quando mata alguém, quase sempre crianças. Não queria que ele fosse sumariamente julgado e executado por ser quem é, um cão rottweiler. Mas também não queria pagar para ver se ele era mesmo aquela doçura cheia de baba que estava a passeio. Me disseram que viria uma viatura, que não vinha nunca. Eu passei a monitorá-lo, à distância, afinal, seguro morreu de velho. Mas cada vez mais eu era tomada por uma vontade de tentar me aproximar dele, ele estava com aquele jeito de não estou nem aí, que era irresistível chegar perto e puxar uma conversa, do tipo, já nos conhecemos de algum lugar? ah, claro, foi tu que interpretou o cão na refilmagem de A Profecia... e por aí vai.
Pessoas passavam por ele, uma teve uma ataque histérico, outros se assustavam e depois que passavam voltavam para os seus mundinhos pessoais. E ele que seguisse o seu caminho. Se machucasse, que fosse o próximo... Eu não sei se estava mais perplexa com a atitude não-estou-nem-aí do Rott, ou com a indiferença dos "humanos". Por que as pessoas só se preocupam quando um fato se consuma em uma tragédia, quando um ato se transforma em um fato que sai na crônica policial: Ah, a polícia. Ainda nada de viatura. Dois agentes da EPTC passaram por ali, de moto, falei com eles, que foram legais, simpáticos, e não fizeram nada. Não era da competência deles. Um grupo de velhinhos que tomava sol quase caiu duro coletivamente quando o Rott se aproximou. Não se mexam!, alguém gritou, que ele vai embora. E ele foi. Confesso que a cena do cemitério de A Profecia voltou à minha cabeça. Nossa, como eu sou maligna... desculpem, não consegui evitar. O que, àquela altura do campeonato, aquele imenso, massudo, robusto e classudo animal faria de mal? Ele só queria pegar um sol naquele corpão preto reluzente e impecável.
Uma moça que passeava com seu cãozinho foi solidária e, juntas, levamos ele até uma esquina, onde ela ficou com ele, e eu fui até o posto da Polícia Militar. Na verdade, a gente poderia ter levado o Rott lá, para ele se apresentar por livre e espontânea vontade, talvez fugir de um flagrante, essas coisas... Mas eu queria uma explicação. Quando e se chegaria a tal viatura? E se o Rott tivesse machucado alguém, daí chegaria? Alguém pelo amor de deus me dê uma explicação.

Dois policiais, uma viatura. E a explicação: não era da competência deles. Há uma equipe responsável, que iria providenciar, antigamente era do BOE, mas não é mais, e a gente, cidadão comum, que vá reclamar para o papa. Se for recolher um cavalo, é com um, o cachorro, é com outro, e assim vai. O fato é: se o Rott não fosse o AntiCristo mais camarada que eu já conheci, e tivesse consumado uma tragédia em uma manhã de sol em um lugar que não é Toscana, quem seria responsabilizado por isso? Além do Rott, evidentemente.

Resumo do resumo da ópera: a moça levou o Rott no carro dela, para a casa dela, e se não fossem lá recolhê-lo, ela providenciaria uma adoção. Soube em novo contato telefônico, com o policial que há pelo menos 30 minutos antes iria providenciar a ida de uma viatura, que à tarde iriam buscá-lo. Não sei se foram. A vida continua. Confesso que quando Rott partiu, senti um aperto estranho. Como no filme do Marley, aquele que eu não quis ver.
Porque Rott confiou em mim, não me fez mal algum, nem a ninguém, estava possivelmente perdido, era dócil, gente boa. E eu não fiquei com ele. Eu não poderia. Não estou conseguindo dar conta nem de mim. Mas graças a gente boa como essa moça que eu nem conhecia, eu sei que ele ficará bem. E graças a um poder público completamente burocratizado e negligente, que funciona muito mais pela vontade pessoal de seus funcionários, é que situações assim acontecem. Tragédias são evitadas. Outras poderiam ser, e infelizmente, não são. E isso não é uma profecia.
Sejam solidários!