Quem sou eu

Minha foto
Porto Alegre, RS, Brazil
escrevo a dor e o prazer de viver vivo para escapar da morte morro e acordo cada vez mais forte

domingo, 28 de junho de 2009

Dunga, Lucio e o Gladiador

Queridos e queridas,

Confesso que o mais me chama atenção quando o assunto é futebol é a realização da Copa do Mundo. É a oportunidade de ver homens bonitos de várias nacionalidades. Tem algo também no futebol que deve ter raízes inconscientes, porque não há lógica alguma que explique por que, nesta capital do Rio Grande do Sul, ou se nasce colorado, ou se nasce gremista. Eu sou colorada. Mesmo quando não vejo os jogos, não sei os resultados, não vou ao estádio, não sei dizer o nome da metade dos jogadores. Sou colorada ontem, hoje e sempre. Como o sangue que corre em minhas veias.
Confesso também que sempre que a Seleção Brasileira jogava, quando eu era criança, eu torcia, torcia muito pelo meu time, minha seleção, meu país. Era verde e amarela da cabeça aos pés, apesar de suspirar pelos jogadores italianos. Mas na seleção estavam Falcão, Rivelino, Zico, e outros que eu admirava pelo jogo, pelo amor à camiseta.

Cresci, e fui percebendo que não precisa ser comentarista de futebol para concluir que o futebol, o jogo mais importante e popular do mundo, também se transformou em um dos negócios mais lucrativos do planeta. Um bebê que chuta na barriga da mãe poderá ser o novo Ronaldinho, ou Ronaldo, o fenômeno. O futebol tornou-se algo tão indispensável ao mundo pré-apocalíptico capitalista, que hoje há agentes, empresários, ministério, contratos e cláusulas nos quais tudo que rende cifras importa, especialmente exportar jogadores para clubes do primeiro mundo, onde se recebe em dólares e em euros.
Enquanto o povo assiste os jogos pela televisão, ouve no radinho de pilha, reunidos no boteco ou ficando afônicos no estádio, os jogadores degladiam-se por causa de uma bola que é literalmente chutada para todos os lados, até que o time que fizer mais gols leva os pontos, a taça, e muito, muito dinheiro.

E eu só passei a gostar de acompanhar os jogos da Seleção Brasileira depois que o eterno Capitão Dunga assumiu como técnico da Seleção. Bairrismo? Não, apesar de Dunga ser meu vizinho, e nem saber disso, e de caminhar no mesmo lugar que eu caminho, e nem saber disso. Eu sou sua admiradora secreta, desde os tempos do Internacional. Dunga simboliza para mim aquilo que eu admiro em um ser humano: trabalho, talento, competência, dedicação, simplicidade, generosidade, e também cara amarrada e espírito de luta, de combate, de ir para cima no campo, nas regras, até vencer. Dunga é um vitorioso. E a fama e o dinheiro não lhe subiram para a cabeça. Talvez por ser como é, não é o queridinho do centro do país. Por não fazer joguinhos de palavras com a mídia, também não é a bola da vez nas coberturas de imprensa. Dunga vai onde tem que ir e faz o que tem que fazer. Assim como Lúcio. Outro ex-Internacional. Será coincidência? Brincadeira à parte, Lúcio é um homem grande, não só em tamanho, é grande em obstinação, dedicação, ele até me assusta quando está em campo. Porque parece que vai sair de lá morto, se preciso for. Entregar-se, jamais.

Cada vez que vejo novamente o filme Gladiador (direção de Ridley Scott, 2000), admiro não somente a perfeita reconstituição do Coliseu que o diretor fez no Marrocos, e as atuações de Russel Crowe e Joaquin Phoenix. Admiro a analogia entre as formas de enganar a torcida, na política do pão e circo: Assim como na época do declínio do Império Romano, as batalhas sangrentas no Coliseu divertiam os romanos enquanto Roma era invadida pelos bárbaros, o futebol hoje diverte os povos enquanto lhes saqueiam uma vida digna e socialmente justa.

Por isso, é bom saber que no futebol, além de dólares, euros e empresas, há os que jogam no campo, para no final levantarem com orgulho uma taça, estufarem no peito uma medalha, chorarem emocionados com a vitória e poderem ir dormir descansados, pensando: Eu mereci.
É isso o que todos merecemos. Batalhar para merecermos um mundo melhor. Senão, qual é o sentido de um gol?
Beijos!

sábado, 27 de junho de 2009

Traição

Queridos e queridas,

Ultimamente, ou tenho insônia e, portanto, não durmo, ou, quando durmo, tenho sonhos ruins (pelo menos aqueles flashes dos quais me recordo, parcialmente, logo ao acordar). Hoje acordei lembrando de duas mulheres que não conheço, e que saíam de um lugar diferente, estavam fechando uma porta em estilo medieval. Elas olhavam para mim com um olhar irônico, sorriam para mim com um sorriso debochado.

Bem, como o pesadelo da noite anterior foi muito pior - sonhei que vários dentes estavam caindo - resolvi que não viria para o computador bisbilhotar o significado dos sonhos. Tenho tentado, e vocês não tem idéia do que isso me custa, não olhar horóscopo, não decifrar mensagens em sinais, não procurar agulha no palheiro. Porque sou uma pessoa tão forte quanto fraca, tão objetiva quanto subjetiva, tão pragmática quanto sensível. Sou capaz de atravessar uma muralha por uma causa na qual acredito. Mas também sou capaz de me afundar no abismo por causa de uma deslealdade, uma mentira. Cada um com seus valores.

Não sou nenhuma santa. Mas sou leal. O que quero dizer com isso é que, por exemplo, quando meu casamento começou a virar água, eu discutia a relação, fazia terapia, tentava acender o fósforo, reavivar o fogo. Eu via os sinais, mas insistia em atravessar a muralha. A traição que aconteceu, muito mais do que sexual, foi uma traição às minhas tentativas de lutar por uma felicidade que na verdade só existia na minha imaginação. Às vezes, a ficha só cai quando admitimos que perdemos a batalha, para não perder a guerra. Que neste caso, é terminar o casamento, para continuar tentando ser feliz.

Por isso, para mim, traição é muito mais do que ser infiel a alguém. Trair é mentir, trair é fingir, trair é enganar, é puxar o tapete, é dizer uma coisa e fazer outra. É ser teu amigo e te golpear pelas costas. É assumir um compromisso, dar sua palavra, e no dia seguinte fazer de conta que aquilo não era nada. É estar contigo, conversar, sorrir, e de repente, sumir. Se estamos sóbrios e em pleno uso de nossas faculdades mentais, então traímos porque somos uns canalhas. Ninguém, ninguém merece ser enganado. Nem o traidor. O grande problema é que muitas pessoas preferem ser enganadas, fingir para si próprias que estão bem. Não querem se olhar no espelho, encarar a realidade, que na maior parte das vezes é difícil, é bem dolorosa.

Por isso tenho poucos amigos. Cada vez menos. Sou geniosa, sou teimosa, sou um furacão de idéias, de adrenalina, e já comprei muitas brigas que não eram minhas, porque não admito injustiças. E já fui muito mal compreendida por isso. Já me magoei com essas coisas. Agora, não sei se é a idade, ou se estou ficando madura mesmo. Mas me choco um pouquinho menos, me desencanto um pouquinho menos quando me passam a perna, quando me enganam, quando me traem.
O que ensinei aos meus filhos, e tenho muito orgulho em dizer, é: lutem sempre, não desistam diante das dificuldades, que serão muitas. Eu não soube ensinar eles a fritar um ovo direito, até hoje estou tentando, mas tenho a tranquilidade de saber que eles me tem como referência para lutar, batalhar, e não cair diante das muralhas.
Por exemplo. Eu sonhei com um castelo. O castelo virou castelo de areia. Por que? Porque só se ergue um castelo, pedra por pedra, com um grupo unido, leal, entusiasmado, forte. AH!! E um pequeno detalhe de nosso mundinho pré-apocalíptico capitalista: dinheiro. Parece que sem dinheiro não alugamos nem uma espelunca de quartinho em um cortiço. Seguro-fiança, pagamento de caução, xerox de documentos, entrega de papeladas, vinte mil assinaturas, foto autenticada da bisavó, coisinhas assim. Tentei e me danei. Sou pé frio, mão queimada, um encosto! Só pode ser... ou há outra explicação?
Quando vi O Ensaio sobre a Cegueira (2008), percebi toda a sensibilidade do diretor Fernando Meirelles em adaptar a obra de José Saramago, sobre uma epidemia que se abate sobre uma cidade. O filme mostra o total desmoronamento da sociedade dita civilizada, que somente quando chega ao colapso tenta resgatar a humanidade perdida. Pois eu imaginava que eu seria a mulher do médico (perfeitamente interpretada por Julianne Moore).
Mas que nada, a cegueira diante das surpresas da vida ainda não me deixa enxergar o mundo como ele realmente é. Um bando de gente que só pensa em si, que se aproxima por interesse, que se afasta quando não tem mais interesse... Pode ser que isso seja normal, que seja assim mesmo. Mas eu não concordo. Ainda acho que estou cega. Porque não estou enxergando uma palavrinha. Uma palavrinha só: caráter.
Fiquem bem!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Eu, M.J. e os manequins

Queridos e queridas,
Liguei o rádio hoje de manhã, e a música era do Michael Jackson. Liguei a tv, não queria ver noticiários, porque o destaque seria... e fui para a tv de assinatura , mas bah, eram videoclipes com os melhores momentos de Michael Jackson. É claro que fiquei vendo, e é impossível não dançar. Thriller será eternamente o melhor clipe musical, forever and ever, como cantava Freddie Mercury.
Por ossos do ofício e do vício, a cada cinco minutos que eu ficava a olhar sites de notícias, eu acompanhava as manchetes: se M. J. morreu de overdose, se sua morte foi criminosa, se suas dívidas ultrapassavam os 500 milhões de dólares, se isso e se aquilo, e mais as homenagens, os melhores momentos, a disputa pela guarda dos filhos. Só não li, ouvi ou vi hoje algo em torno de quem será o ator que vai interpretar o Moonwalker no cinema. Sim, porque a história de M.J. rende não somente um filme, mas uma franquia, bem ao gosto dos produtores de Hollywood. Morreu o astro pop, fica o mito. E com ele, os mistérios, interesses e negócios feitos pelos vivos, muito vivos. Arte também é negócio. No caso de M.J., ele tinha tanto talento para fazer, como para derreter fortunas. Tanto para ser idolatrado, como para ser processado. Foi negro, foi branco, foi saudável, foi doente. Foi um talento e foi uma incógnita.

Em uma entrevista que ele deu para a Rolling Stone, duas coisas chamaram muito minha atenção. A primeira: M. J. se achava tímido, e só se libertava da timidez quando estava em um palco. Quando estava lá, não queria mais sair. Ficava em transe, hipnose, tamanha sua devoção em atuar, cantando, dançando, sapateando. Saía de sua vida para incorporar seu personagem.
A segunda coisa que me chamou especialmente a atenção é algo que aproximou demais M.J. de mim. Ele revelou que tinha verdadeira fascinação por estátuas, manequins. Não estou me referindo ao seu gosto excêntrico, já que ele tinha inclusive um zoológico com direito a cobra e tudo o mais.

Eu me refiro à solidão de M. J. Com todo o dinheiro, o luxo, a fama, e naquela mansão onde eu imagino tudo do melhor e do melhor ainda, e no entanto, ele via nos manequins os amigos imaginários que na vida real ele não tinha.
Desculpem, meus amigos e minhas amigas que agora lêem e podem se sentir chateados comigo. Mas às vezes a gente é tomado por um vazio existencial. Vejam só. Estamos aqui, de passagem. Fazemos laços. Como a palavra define, laços que são feitos e são desfeitos. Tudo é movimento. Tudo é efêmero. O que ontem estava perto, hoje está distante. Acho que para esses momentos de total lucidez, que para alguns pode parecer loucura, encontramos conforto espiritual em padres, terapeutas, e amigos. Ou em manequins. Que nós vemos, mas que não nos vêem. Para os quais confidenciamos, e que não nos ouvem. A relação com os amigos é uma relação de afeto, e de respeito pelo outro. A relação com os manequins é uma relação muito mais profunda. É quando, falando sozinhos, ouvimos nossa própria solidão.
Fiquem bem.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

This is it

Queridos e queridas,

Michael Jackson morreu. 50 anos, ataque cardíaco, talvez por excesso de medicamentos. Farrah-Fawcet também morreu hoje. 62 anos, câncer. Ao saber dessas tristes notícias, deparei-me com flashes de minha infância. Eu andava de bicicleta com os cabelos voando pelo rosto, como se fossem os cabelos da pantera Jill. Eu não perdia o desenho dos Jackson Five, especialmente por causa do irmão caçula, Michael. Eu era criança, mas eu olhava aquele menino e pensava... ele vai longe. Eu via aquela mulher linda, sorriso largo e o corte de cabelo mais cobiçado no mundo naquela época, e pensava, só ela para conquistar o homem de seis milhões de dólares, Lee Majors, seu primeiro marido.
Quem conhece ou viu o filme Love Story (1970, direção de Arthur Hiller), com Ali MacGraw e Ryan O'neal, sabe que se trata de uma triste história de amor, no qual a doença e a morte, ao contrário de separar quem se ama, torna o amor mais forte. Ryan O'neal foi casado com Farrah-Fawcet. Separaram-se. Voltaram a ficar juntos, e há pouco tempo, com ela já muito doente, voltaram a casar. Love stories acontecem na vida real. Ryan O'neal verbalizou em uma frase toda a dor que sente. "Não sei o que vai ser de minha vida sem ela". Viver, apesar de perder quem se ama, é morrer um pouco também.

Não é exagero meu dizer que o mundo chora a morte de Michael Jackson. Artista polêmico, alvo de denúncias, acusações, escândalos, o fato é que o menininho dos Jackson five se negava a crescer, e saiu de sua infância humilde literalmente para o mundo. E apesar de todo o seu inigualável talento, olhem a ironia desta manchete, que li hoje: "Jackson muda a história da música, mas morre sozinho e endividado". Mesmo para lá de endividado, negava-se a se desfazer do Rancho Neverland, nome não escolhido ao acaso. Ele foi abusado pelo pai na infância. Ele foi acusado de pedofilia. Foi branqueando e se metamorfoseando, até hoje não se sabe se era vitiligo, câncer de pele, cirurgias mal feitas... o que importa?
Quando se é astro, estrela, tudo passa a importar. A cor da pele, o corte de cabelo, se tropeçou ao sair de casa, se come carne vermelha, se usa óculos de grau. Se Farrah-Fawcet não estivesse doente, não estaria sendo alvo de reportagens. Afinal, o tempo passa, e a linda loira de cabelos mágicos ficou em um passado distante. O tempo, na cronologia da tv e do cinema, é o maior inimigo dos artistas. O mesmo vale para Michael Jackson, que embora sendo eternamente o Moonwalker, estava prestes a iniciar a uma turnê para arrecadar dinheiro e cobrir as dívidas, de um mundo sem sentido e glamuroso do qual ele não conseguia mais sair. Alugava uma mansão, apesar de não ter dinheiro... No documentário Living with Michael Jackson (2003), de Martin Bashir, o cantor fez revelações que lhe custaram vários processos. Mas apesar de toda essa vida turbulenta, ele era o rei do pop, o cantor e dançarino que deixou composições, músicas, passos de dança, apresentações e videoclipes inesquecíveis.
Farrah-Fawcet estava gravando suas cenas finais em um documentário, produzido por ela e O'neal. Michael Jackson já havia declarado que a sua nova turnê, que teria 50 shows em Londres a partir de julho, seria a última: "É isso, serão os últimos shows, a cena final. Vejo vocês em julho". O nome da turnê que não houve é This is it.
This is it. A vida. Um fio.
Tchau.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O outro como um outro eu

Queridos e queridas,

Ontem eu escrevi sobre uma cena antológica que se referia à perseguição de inocentes. Diversos cineastas transpuseram para as telas do cinema suas visões sobre as invasões, as guerras, os genocídios, as lutas de classes, os regimes totalitaristas, de direita e de esquerda, e as ilusões da sociedade do espetáculo. Mas foi justamente um cineasta estreante alemão, de nome tão comprido quanto complicado para nós, não alemães - Florian Henckel Von Donnesmarck, que escreveu e realizou um filme ao mesmo tempo dramático e sarcástico sobre como um governo autoritário tenta manter o seu poder, mediante o total controle e vigília sobre os cidadãos e de um modo especial sobre os artistas. Estou falando de A vida dos outros, Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007.

Ah, os artistas, sempre eles. Tão fúteis, tão inúteis, e tão indesejáveis no "sistema". Os que não se enquadram, não se entregam, não se deixam cooptar, os que captam no ar fétido e invisível a corrupção, a impunidade, a mentira, a falsidade, a traição. Os que transpõem para o cinema, a literatura, o teatro, a música, as artes plásticas, toda a dor e o estupor de ser testemunho de uma época de mordaça, de luxúria, de globalização da alienação, de uma guerra fria que dá lugar a uma outra guerra, e a uma outra guerra, e a toda e qualquer outra absurda guerra. Da babel da incomunicabilidade entre as pessoas. Que são vistas como números de CPF, de Carteira de Identidade, que ocasionalmente são indispensáveis pelo seu Título de Eleitor, para votarem na esperança de nações melhores. Menos corporativistas, menos clientelistas, menos totalitaristas, menos pseudo-democráticas.
Pois o alemão Florian reconstitui neste filme a Berlim Oriental cinco anos antes da queda do Muro. O ator alemão Ulrich Mühe interpreta o protagonista Wiesler, um agente da polícia secreta alemã que explica aos seus alunos como fazer as pessoas que se opõem ao regime confessar seus "crimes". Ele vai investigar o dramaturgo Dreyman, o único simpatizante do sistema, e se apaixonar por Christa-Maria, namorada de Dreyman. A partir dessa invasão da privacidade do dramaturgo, Wiesler vai fazer uma série de descobertas, antes e após a queda do muro de Berlim. Chega a ter medo de sua própria sombra, ele que se transformou em uma sombra na vida dos outros. Mühe tinha câncer de estômago, e morreu seis meses depois do filme ganhar o Oscar, em fevereiro de 2007. Ele era um dos líderes do teatro na extinta Alemanha Oriental. Sua interpretação marcante é uma das grandes razões de se assistir este filme.

E também porque a vida dos outros é a dos outros. O problema é que regimes totalitários não respeitam a alteridade. Nem os regimes liberais, para os quais só importa, unicamente, a individualidade. Perceber e compreender o outro como um outro eu, como na regra de ouro aristotélica, retomada por Tomás de Aquino, é buscar na solidariedade a possibilidade de uma vida mais justa, mais fraterna. Amar uns aos outros...
Se é possível? Eu recomendo que assistam A vida dos outros. O filme será exibido nesta quinta-feira, às 18h30, na Faculdade de Educação da UFRGS, no ciclo Imagem e Conceito, sob a coordenação do professor Luiz Carlos Bombassaro.
Beijos!

terça-feira, 23 de junho de 2009

A escadaria e o melhor filme do mundo

Queridos e queridas,

Um pensamento que me c0nsome é a dificuldade de trabalhar na área artística nesta cidade, neste Estado, neste país. O trabalho do artista não é, em geral, valorizado. Às vezes o reconhecimento vem somente depois que o artista saiu de sua província, ou voltou do exterior, ou foi descoberto por um "olheiro", ou quando foi escalado para o elenco de Malhação, ou quando foi selecionado para o Big Brother, quando tem um caso com Madonna, ou quando a ele se fazem homenagens póstumas. Às vezes, nem antes, nem depois de morto.
Gente muito boa, competente, dedica sua vida à arte, são atores, artistas de circo, de teatro, músicos e compositores, são escritores, cineastas, produtores culturais, e... a história se repete. Falta verba, falta vontade política, falta visão, falta cultura. Excesso de corrupção, excesso de alienação, excesso de narcisismo. Quando falta a arte, falta o ar puro. Ao contrário de ser fútil e inútil, a arte é a maior e mais profunda expressão de humanidade, dos sentimentos humanos. Dos rastros que as culturas deixam ao longo do tempo, seus vestígios, legados, seu sentido neste mundo. Por exemplo, uma escadaria.

Descendo os degraus de uma escadaria hoje, dei-me conta de que uma escadaria não é apenas uma escadaria. É cinema puro. De gênio. De Sergei Eisenstein. Este cineasta russo roteirizou, dirigiu e realizou aos 27 anos de idade“O Encouraçado Potemkin” (1925). O filme não só é considerado a obra mais importante de Eisenstein, como uma das mais importantes do cinema em todos os tempos, o melhor filme do mundo. Muito embora tenha sido encomendado para celebrar os vinte anos da Revolução Russa, O Encouraçado Potemkin transcende o contexto histórico e ideológico que o gerou, e é uma obra de arte composta por uma montagem inovadora, com o uso da teoria das atrações, impressionantes movimentos de câmera e a sequência de um massacre que eterniza em imagens as perseguições a pessoas inocentes. E isso não é coisa de cinema, infelizmente: a multidão tranquila, em festa. Tiros, correria, perseguição. O homem sem pernas corre. A criança cai morta. O desespero no rosto da mãe. A criança morta e pisoteada. A fuga em massa. Os soldados avançam, armados. O carrinho de bebê desce desgovernado pela escadaria.

Uma escadaria que representa os degraus dos que sobem ao poder, totalitários, e os que descem, reprimidos pelo autoritarismo. Uma escadaria que simboliza o absurdo dos regimes que, em nome de uma ideologia, massacram inocentes. A sequência do massacre na escadaria de Odessa é uma obra-prima de Eisenstein, e nem por isso ele teve uma vida digna de seu talento. Fez várias outras grandes obras, mas teve sua produção "limitada" por governantes comunistas, e também não teve sorte ao tentar a vida nas terras capitalistas made by Eua. Morreu de ataque cardíaco, e eu imagino, de desgosto. Afinal, Eisenstein, mesmo simpatizante do marxismo, tinha atritos com o regime de Stalin, por defender a liberdade de expressão artística e a autonomia dos artistas.
Sentada em uma escadaria pichada em Porto Alegre, fico a imaginar se Eisenstein fosse filmar hoje O Encouraçado... dependeria do patrocínio de grandes bancos privados? Contaria com o apoio estatal? Não, não. Neste mundo em colapso de ideologias, de sistemas econômico e político, o espaço para a arte é a serventia da casa.

Que bom seria se uma escadaria fosse apenas uma escadaria. Para sentar, subir ou descer degraus. Mas as imagens eternizadas pela genialidade de Eisenstein servirão sempre para mostrar que, por causa dos absurdos que se fazem em nome de governos e ideologias, pela escadaria os inocentes com pernas e sem pernas correm. Morrem. Talvez muitos, como os bebês e as crianças, sem terem tido tempo de entender o sentido do absurdo.
Fiquem bem!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

blogs & diários

Queridos e queridas,

Eu li hoje que um dos grandes escritores contemporâneos, José Saramago, declarou ao Jornal Clarín que nos blogs, as pessoas vem escrevendo mais - e pior. Para o escritor português, muitas pessoas não sabem utilizar esse tipo de espaço disponível na internet, por não se preocuparem com a qualidade do que escrevem.
Eu acrescentaria outra palavra à declaração de Saramago: a utilidade de um blog. Por exemplo, o próprio escritor utiliza seu blog para publicar artigos que reuniu no livro Caderno de Saramago, o qual foi vetado na Itália pelo fanfarrão Silvio Berlusconi. De suas escrituras no blog será publicado um livro no próximo dia 25, em Lisboa, em um encontro com blogueiros e internautas.
O português nobel de literatura é o próprio exemplo de que qualidade literária e utilidade da internet como uma ferramenta educativa e cultural são não somente desejáveis, como plenamente realizáveis.

Há alguns anos, quando ainda não havia blog nem internet, havia o diário. O diário podia ser uma pequena caderneta, um bloco de anotações, pedaços reunidos de papel. O que se esperava de um diário não era a qualidade, mas a confidência. Sua única e primordial utilidade seria ser o silêncio, o guardador de segredos, o criado mudo, o melhor amigo.
Diferentemente de uma agenda, onde se registram compromissos, no diário se escreviam os segredos, os acontecimentos mais importantes, os registros da memória, os lapsos do insconsciente, os desejos mais escusos, as revelações mais íntimas. Sonhos, medos, fantasias. Quando a pessoa não cabia mais em si de tanta alegria, anotava seus sorrisos no diário. Quando a pessoa não continha mais em si tanta tristeza, anotava suas lágrimas no diário. Daí o uso de cadeados. Baús. Lugares para esconder o melhor amigo, o confidente, o guardador de segredos.
O oitavo pecado capital era a profanação do diário. Quem ousasse achar o esconderijo, quem se atrevesse a tirar o lacre do segredo, deveria ser banido da face da terra. Abrir um diário é o mesmo que escarafunchar a alma de alguém. Sem a sua permissão. Hoje, o blog convida e permite a socialização das dores e dos amores, do texto e do subtexto, do consciente e do inconsciente. É informativo, é terapêutico, é a qualidade, e é a falta de qualidade. É útil, ou é inútil. É o que o blogueiro quiser que seja.

Um dos meus livros de cabeceira é O Diário de Anne Frank. O livro que originou uma peça de teatro e o roteiro do filme dirigido por George Stevens, que recebeu três Oscars e indicações ao Globo de Ouro. Um filme que mostra as escrituras de uma menina de 13 anos que descobre no esconderijo de um sótão, nas agruras de uma guerra mundial, na tortura diária de ser discriminada e perseguida, que escrever é uma salvação.
Anne Frank conversava com Kitty, para quem escrevia sobre sua família, seus sonhos, seus medos. Para quem revelou o seu primeiro e grande amor. Para quem revelou sua inabalável confiança na vida. Anne Frank foi morta. Seu diário a imortaliza. E seu diário, hoje sob a forma de livro, de peça, de filme, divulgados em um blog, homenageiam e universalizam a sua imortalidade.
Abraços!